Internacional
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Lula chega a Nova York em momento tenso nas relações entre Brasil e EUA

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou neste domingo (21.set.2025) a Nova York em uma fase considerada a mais difícil das relações entre Brasil e Estados Unidos. Desde o início do seu segundo mandato, o presidente Donald Trump, do Partido Republicano, aplicou várias sanções contra o Brasil e sinalizou novas medidas em resposta à condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Lula embarcou às 10h e pousou às 18h45, horário de Brasília. Não há agendas públicas para este domingo. Ele participará na terça-feira (23.set) da abertura da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), onde será o primeiro chefe de Estado a discursar. Também estará presente em compromissos sobre clima e defesa da democracia até quarta-feira (24.set).

Desde julho, quando Trump vinculou a elevação de tarifas para produtos brasileiros à suspensão do julgamento de Bolsonaro, o diálogo diplomático entre os países praticamente cessou.

O grupo republicano optou por interlocutores ligados ao bolsonarismo, como o deputado Eduardo Bolsonaro e o empresário e jornalista Paulo Figueiredo. No governo brasileiro, tais ações são consideradas a pior ofensiva estrangeira contra a democracia do país e uma estratégia alinhada à direita brasileira para as eleições de 2026.

Recentemente, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou que novas sanções devem ser anunciadas em reação à condenação de Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão pela tentativa de golpe de Estado em 2022.

Além disso, o ministro do STF Alexandre de Moraes foi incluído na Lei Magnitsky, que permite sanções contra autoridades estrangeiras acusadas de violações de direitos humanos, como bloqueio de bens e suspensão de vistos.

Na semana anterior, o governo Trump concedeu ao ministro da Saúde, Alexandre Padilha, um visto com restrições de movimentação limitadas a uma área de 5 km do hotel, sede da ONU e missão do Brasil. Padilha desistiu de acompanhar Lula na ONU, classificando a medida como inaceitável e uma afronta.

Em agosto, os Estados Unidos cancelaram os vistos da esposa e filha de Padilha devido à sua atuação no programa Mais Médicos no governo Dilma Rousseff. O visto de Padilha estava vencido na ocasião.

Segundo fontes do Planalto, o momento das novas sanções pode causar constrangimento a Lula. A viagem ocorre num contexto global complicado, com tensões comerciais e conflitos como as guerras na Ucrânia e em Gaza, que aumentam o peso político da ONU.

O governo brasileiro não solicitou nem recebeu sinalizações para uma reunião entre Lula e Trump na ONU. O foco da visita será pautas da política internacional do presidente brasileiro.

No discurso na ONU, Lula pretende destacar temas como defesa da democracia, combate à fome e fortalecimento dos mecanismos multilaterais, além de reafirmar a soberania brasileira e recusar interferências internacionais.

Lula e Trump estarão na mesma sala na terça-feira, após os discursos, mas um encontro formal não está garantido, devendo ser restrito possivelmente a um cumprimento breve.

O presidente brasileiro deve revisar seu discurso até pouco antes de falar às 10h (horário de Brasília) e provavelmente evitará citar Trump diretamente para manter a moderação na conversa bilateral.

Ele deve ressaltar a independência dos Três Poderes no Brasil e afirmar que o STF não cedeu a pressões externas ao condenar Bolsonaro, defendendo que a Justiça respondeu a ameaças à democracia.

Caso novas sanções sejam impostas, Lula poderá reavaliar a estratégia brasileira.

Durante a estada em Nova York, cerca de 30 chefes de Estado e expressivas organizações civis solicitaram reuniões com Lula, mas limitações logísticas devem permitir aproximadamente três encontros não confirmados ainda.

Um desses pedidos é do presidente da Ucrânia, Vladimir Zelensky, com quem Lula tentou se encontrar em maio no Canadá, sem sucesso por motivos logísticos. Uma eventual reunião seria a segunda entre eles. Lula tentou atuar como mediador do conflito na região no início do terceiro mandato, mas perdeu força no tema.

Na segunda-feira (22.set), Lula participará da conferência de alto nível da ONU sobre a questão palestina e defesa da solução de dois Estados com Israel, posição tradicional do Brasil.

Na terça-feira, além do discurso na Assembleia Geral, está prevista uma reunião bilateral com o secretário-geral da ONU, António Guterres.

Na quarta-feira (24.set), Lula liderará uma reunião com os presidentes do Chile, Espanha, Uruguai e Colômbia em defesa da democracia e contra o extremismo. Os Estados Unidos não foram convidados para esse encontro.

Um dos focos será o fortalecimento de organismos multilaterais como a ONU e seu Conselho de Segurança. Em 2024, uma reunião parecida foi liderada por Brasil e Espanha. Cerca de 30 países confirmaram presença.

Também na quarta-feira, Lula co-presidirá com Guterres a Cúpula Virtual sobre Ambição Climática, tema prioritário para o Brasil na COP30, prevista para novembro em Belém (PA).

Créditos: Poder360

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