Internacional
07:04

Sanções dos EUA e elogios de Trump a Lula mostram jogo duplo diplomático

Especialistas em relações internacionais comentam os gestos ambíguos do governo Donald Trump, que combinou sanções a autoridades brasileiras com elogios ao presidente Lula na Assembleia Geral da ONU.

Um dia após impor restrições de vistos a autoridades do governo federal e juízes envolvidos no julgamento de Jair Bolsonaro, Trump elogiou Lula. Em seu discurso na ONU, mesmo após críticas duras do petista, afirmou sobre o breve encontro entre eles: “Eu estava entrando e o líder do Brasil estava saindo. Nós nos vimos. Eu o vi, ele me viu e nós nos abraçamos. (…) Ele parecia um cara muito bom, na verdade (…) Tivemos uma ótima química”.

Karina Stange, professora de Relações Internacionais do Ibmec que acompanhou o evento em Nova York, interpreta os elogios como parte de um “jogo duplo”. Segundo ela, não há mudança ideológica, mas um cálculo pragmático. Trump mantém um discurso de apoio a Bolsonaro para o público interno, mas evita transformar o Brasil em inimigo. Ao sinalizar abertura para diálogo com Lula, preserva espaço para as relações bilaterais e reconhece a importância estratégica do Brasil em temas como BRICS, clima e comércio. “É menos recuo e mais jogo duplo: defender Bolsonaro sem fechar portas para Lula”, afirmou.

Em outra análise, o professor e consultor Carlos Gustavo Poggio destaca que Trump não segue padrões tradicionais na política externa. Segundo ele, o presidente atua de forma instintiva e personalista, valorizando o entretenimento e a surpresa. Poggio pondera que, se existe alguma estratégia, pode estar ligada ao impacto econômico das sanções, especialmente o aumento da taxação sobre produtos brasileiros, que elevou preços de carne e café nos EUA.

“Ele pode ter entendido os custos dessas taxações agora. Sabe que problemas econômicos afetam sua popularidade. Se essa é a lógica, ela seria a base dos gestos recentes”, explicou.

A imprevisibilidade é uma marca do republicano. Poggio lembra que, enquanto hoje defende a Ucrânia contra a Rússia, já teve discurso oposto.

Kai Enno Lehmann, professor do Instituto de Relações Internacionais da USP, compartilha a visão da imprevisibilidade e afirma que Trump pode mudar rapidamente de ideia quanto à abertura para Lula. Para ele, Lula deve responder logo, pois a postura do republicano pode ser efêmera.

A reunião entre Lula e Trump foi combinada para a próxima semana, conforme o próprio Trump anunciou na ONU. O governo brasileiro confirmou, mas detalhes ainda não foram divulgados.

Denilde Holzhacker, professora de Relações Internacionais da ESPM, avalia que a conversação pode trazer avanços, apesar das críticas norte-americanas ao Brasil e das expectativas de alinhamento com o governo Trump. Ela observa que Lula não aceitará imposições e que será necessário construir uma relação diplomática que permita um diálogo efetivo. Contudo, ainda é cedo para definir o tom e os resultados do encontro.

Kai Enno Lehmann conclui que, embora a abertura ao diálogo seja melhor do que a ausência dele, “não sabemos se isso vai durar e resultará em algo duradouro”. Para ele, este não é o último capítulo dessa relação complexa entre Brasil e Estados Unidos.

Créditos: UOL Notícias

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