PCC usa cerca de 60 motéis em SP para lavagem de R$ 450 mi, diz Receita
Uma rede de aproximadamente 60 motéis e empresas hoteleiras é utilizada pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), através de nomes de laranjas, para lavar dinheiro oriundo do crime organizado, conforme revelou uma investigação da Receita Federal e do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) nesta quinta-feira (25).
Entre 2020 e 2024, esses motéis movimentaram mais de R$ 450 milhões. Alguns dos estabelecimentos já foram identificados e estão localizados em cidades da Grande São Paulo como Ribeirão Pires, Itaquaquecetuba, Santo André, São Bernardo do Campo, além de bairros na Zona Leste da capital paulista.
A Operação Spare, realizada no dia 25 de setembro de 2025, direciona-se a esse esquema ilegal do PCC que envolve os setores de combustíveis e jogos de azar.
De acordo com a Receita Federal, os motéis contribuíram para o aumento patrimonial dos sócios ligados ao crime organizado por meio da distribuição de R$ 45 milhões em lucros e dividendos.
A investigação avançou após a descoberta de que a conta de iCloud de um operador do grupo criminoso continha comprovantes digitais que mostravam transferências realizadas pelos motéis para uma fintech, que atuava como instituição de pagamento central na operação de lavagem de dinheiro.
Operações imobiliárias feitas pelos CNPJs dos motéis, vinculados a integrantes da organização criminosa, também chamaram atenção. Um desses CNPJs comprou um imóvel de R$ 1,8 milhão em 2021, e outro adquiriu um imóvel de R$ 5 milhões em 2023.
A Operação Spare é um desdobramento da Operação Carbono Oculto, que expôs as ações do PCC dentro de fintechs no sistema financeiro da Faria Lima. O nome “Spare” vem do boliche, referindo-se à derrubada de todos os pinos após dois arremessos.
Durante as fiscalizações, foram identificados 21 CNPJs ligados a 98 estabelecimentos da mesma franquia, todos registrados em nome dos alvos da operação. Essas empresas apresentaram indícios fortes de lavagem de dinheiro.
Entre 2020 e 2024, movimentaram cerca de R$ 1 bilhão, mas emitiram apenas R$ 550 milhões em notas fiscais e pagaram só R$ 25 milhões em tributos federais, equivale a 2,5% da movimentação financeira. Nesse período, R$ 88 milhões foram distribuídos em lucros e dividendos.
O Ministério Público e a Polícia Militar realizam ações contra os alvos ligados ao PCC em São Paulo.
Segundo a Receita, os envolvidos usaram os recursos para adquirir imóveis e bens de alto valor, diretamente ou via empresas de fachada. Estimativas indicam que os bens identificados correspondem a apenas 10% do patrimônio real do grupo.
Entre os bens adquiridos estão imóveis, terrenos e até helicópteros, bens de luxo incompatíveis com a receita operacional dos motéis.
O empresário Flávio Silvério Siqueira, o Flavinho, principal alvo da operação, é suspeito de lavar dinheiro por meio de postos de combustíveis ligados ao PCC.
A Receita identificou 267 postos ativos que movimentaram mais de R$ 4,5 bilhões entre 2020 e 2024, recolhendo apenas R$ 4,5 milhões em tributos federais, o que representa 0,1% do total movimentado, valor abaixo da média do setor.
Administradoras de postos também movimentaram R$ 540 milhões no período. Foi detectado também um padrão de retificação simultânea de declarações de Imposto de Renda em que altos valores foram incluídos em declarações antigas sem o recolhimento dos impostos devidos, configurando tentativa de justificar patrimônio ilícito.
Membros da família do principal alvo aumentaram patrimônio informado irregularmente em cerca de R$ 120 milhões.
A operação cumpriu 25 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Santo André, Barueri, Bertioga, Campos do Jordão e Osasco, contando com 64 servidores da Receita Federal, 28 do Ministério Público de São Paulo, participantes da Secretaria da Fazenda e Planejamento do Estado (Sefaz-SP) e cerca de 100 policiais militares.
Foram encontradas ligações entre os alvos da Spare e pessoas relacionadas a outras operações contra o crime organizado, como Carbono Oculto e Rei do Crime. Entre os indícios há transações comerciais, uso compartilhado de helicópteros e reservas de passagens conjuntas para viagens internacionais.
A Receita Federal também deflagrou outras operações contra fraudes em combustíveis, como a Cadeia de Carbono, que apreendeu cargas de petróleo e derivados avaliadas em cerca de R$ 240 milhões no Porto do Rio de Janeiro.
Recentemente, a Receita publicou portaria para intensificar o combate a fraudes nas importações.
O órgão reafirma seu compromisso de garantir a regularidade na importação de petróleo e derivados, protegendo a economia ao excluir do mercado empresas e indivíduos que atuam irregularmente por meio de sonegação ou lavagem de dinheiro.
Créditos: g1