Governo Lula teria atuado em segredo para reabrir diálogo com Trump
Houve estratégia do governo Lula por trás da reabertura do diálogo entre Brasil e Estados Unidos, segundo fontes. A proposta do presidente americano Donald Trump de se encontrar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, durante a Assembleia Geral da ONU esta semana, não teria sido totalmente espontânea, mas foi mantida sob sigilo para evitar tentativas de boicote por parte de Eduardo Bolsonaro e seus contatos no Departamento de Estado americano.
Fontes do governo e diplomáticas ouvidas pela CNN afirmam que houve uma movimentação prévia para preparar o terreno de uma possível aproximação. Conversas de autoridades dos governos brasileiro e americano aconteceram nas últimas semanas.
De acordo com uma dessas fontes, o processo foi conduzido com “enorme grau de sigilo”. Outro interlocutor afirmou que o Itamaraty fez contatos “muito discretos” antes da Assembleia. Ambos afirmam que a discrição foi essencial para que o objetivo fosse atingido.
A orientação de manter a discrição foi levada tão a sério que, quando questionados por jornalistas sobre a possibilidade de um encontro entre Lula e Trump, o governo brasileiro afirmava apenas que não havia esforços para isso. Oficialmente, o que se dizia era que poderia ou não haver um aperto de mãos, mas qualquer ação diplomática nos bastidores era negada.
Diplomatas chegaram a dizer que as novas sanções impostas por Washington, na segunda-feira (22) anterior ao discurso de Trump, teriam inviabilizado qualquer gesto de aproximação. Mas as punições já estavam “precificadas” e já havia um terreno preparado para que um contato pudesse ocorrer.
Se a intenção fosse evitar um encontro, o cerimonial do governo teria preparado a ocasião para que Trump e Lula não se encontrassem.
Um interlocutor que acompanha de perto a relação entre Brasil e Estados Unidos afirmou que, embora não houvesse um encontro agendado, a possibilidade de uma troca entre os dois líderes nunca esteve completamente descartada e o gesto de Trump não foi totalmente espontâneo.
A avaliação é de que a surpresa foi o fato de Trump ter anunciado o encontro de forma tão afável nos cerca de dois minutos em que elogiou Lula no púlpito da Assembleia, a despeito das críticas ao Brasil que antecederam esse momento da fala.
Segundo outra fonte, o movimento não tinha como objetivo a retomada do diálogo exatamente na reunião em Nova York, mas essa era uma possibilidade diante das circunstâncias propícias da Assembleia Geral. Um interlocutor afirmou que não havia uma previsão de sinalização de encontro para a semana seguinte, por exemplo, mas os canais estavam sendo reabertos e ambos os lados sabiam disso.
Após a declaração de Trump, imediatamente especulou-se se o encontro poderia acontecer ainda em Nova York. Mas logo a hipótese foi descartada porque o governo brasileiro temia que um encontro presencial e marcado às pressas poderia “dar um palco para um show” de Donald Trump, como ocorreu com Zelensky e Ramaphosa, os presidentes ucraniano e sul-africano que foram insultados na Casa Branca.
Uma das fontes admitiu que Joesley Batista, fundador da JBS, conseguiu uma audiência com o presidente americano. Mas a leitura é de que empresários podem até buscar aproximação, mas não seriam capazes de mudar a postura de Trump. “Ninguém muda a cabeça de Trump a não ser ele mesmo”, resumiu.
Créditos: CNN Brasil