EUA enfrentam shutdown e suspendem serviços federais após impasse orçamentário
O governo dos Estados Unidos iniciou o fechamento das suas operações após a meia-noite de quarta-feira (1º), devido ao não acordo entre legisladores e o presidente Donald Trump em negociações orçamentárias no Congresso sobre o financiamento das agências federais.
Este é o primeiro shutdown desde o maior da história, que durou 35 dias, ocorrido há quase sete anos. A paralisação afeta vários departamentos e agências, impactando centenas de milhares de funcionários públicos.
O impasse pode resultar na perda de milhares de empregos federais. Diversas agências informaram que a paralisação, a 15ª do governo desde 1981, suspenderá a divulgação do esperado relatório de emprego de setembro, reduzirá o tráfego aéreo, interromperá pesquisas científicas, atrasará pagamentos às tropas americanas e forçará 750 mil funcionários federais a licença não remunerada, causando um custo diário de US$ 400 milhões.
Trump, cuja campanha para reestruturar o governo federal prevê o afastamento de cerca de 300 mil trabalhadores até dezembro, alertou os democratas que a paralisação pode levar a medidas “irreversíveis”, incluindo novos cortes em empregos e programas.
A paralisação começou logo após o Senado rejeitar um projeto de gastos de curto prazo que manteria as operações até 21 de novembro. Os democratas se opuseram porque os republicanos recusaram incluir uma extensão de benefícios de saúde para milhões de americanos, que expiram no fim do ano. Os republicanos defendem que esta questão seja tratada separadamente.
No centro do impasse estão US$ 1,7 trilhão destinados às operações das agências, o que representa cerca de um quarto do orçamento total de US$ 7 trilhões. O restante cobre programas de saúde, aposentadorias e juros da dívida federal, que já chega a US$ 37,5 trilhões.
Especialistas alertam que a paralisação pode se estender além dos fechamentos anteriores, com Trump e integrantes da Casa Branca ameaçando sancionar os democratas com cortes programáticos e na folha de pagamentos.
Russell Vought, diretor de orçamento de Trump, ameaçou na semana anterior demissões permanentes caso a paralisação perdure.
O maior shutdown da história americana ocorreu entre dezembro de 2018 e janeiro de 2019, durando 35 dias, durante o primeiro mandato de Trump, por discordâncias sobre segurança na fronteira.
Após reunião com o presidente e líderes do Congresso, o líder democrata no Senado, Chuck Schumer, afirmou que “tudo o que eles querem é tentar nos intimidar, e não terão sucesso”.
John Thune, líder da maioria no Senado, qualificou o projeto de financiamento fracassado como “não partidário” e livre de cláusulas políticas, ressaltando que a mudança se deve à presidência de Trump, e classificou o impasse como político e sem motivo substantivo.
Embora os republicanos detenham maioria nas duas câmaras, é necessário um mínimo de 60 senadores para aprovação de legislação orçamentária, exigindo apoio de pelo menos sete democratas.
Democratas enfrentam pressão às vésperas das eleições de meio de mandato em 2026, que definirão o controle do Congresso nos últimos anos do mandato de Trump.
Além da extensão de subsídios de saúde, os democratas buscam assegurar que Trump não possa reverter alterações legislativas já aprovadas, apontando a relutância do presidente em gastar verbas aprovadas pelo Congresso como motivo para questionar a aprovação de novos gastos.
Robert Pape, professor de ciência política da Universidade de Chicago, destaca que o clima político polarizado, intensificado pelo assassinato do ativista conservador Charlie Kirk e o crescente poder das alas extremas, dificulta acordos para reabrir o governo.
Ele complementa que ambos os lados enfrentam resistência de milhões de apoiadores que pressionam por posições agressivas, o que torna improvável que recuem.
Créditos: Folha