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Intoxicações por metanol em SP causam impacto e medo em bares

A crise causada por intoxicações por metanol em São Paulo gera preocupação entre consumidores e afeta o funcionamento dos bares, que têm observado uma troca de destilados por cerveja. São seis mortes confirmadas e dezenas de casos suspeitos, mobilizando a sociedade e políticas para endurecer punições contra a falsificação de bebidas. Estabelecimentos revisam seus protocolos de segurança para recuperar a confiança do público.

Na agitada noite paulistana, o caso das intoxicações por destilados adulterados já se faz sentir nos bares tradicionais da cidade. Na quarta-feira, as mortes suspeitas no estado chegaram a seis, com outros 31 casos ainda em apuração. Também há investigações de óbitos em Pernambuco e um homem que perdeu a visão. Nas ruas, o cenário oscila entre balcões vazios e clientes que preferem cerveja, por precaução. O temor se espalha em grupos de WhatsApp entre frequentadores.

Este clima de medo e desconfiança afeta a boemia paulistana. Em bairros como Vila Madalena e Pinheiros, clientes evitam coquetéis e destilados, priorizando bebidas consideradas mais seguras. No Boca de Ouro, em Pinheiros, um bar renomado, o sócio Renato Martins relata uma terça-feira com movimento atípico e menos clientela devido ao receio generalizado, apesar dos protocolos rigorosos com distribuidoras certificadas.

Um cliente habitual, o economista Chau Kuo, disse continuar frequentando o local, mantendo a rotina de beber drinques, embora reconheça o risco pequeno e espera maior cuidado dos bares.

Em outros locais, a cerveja virou a escolha principal para quem não abre mão de beber. Isabel Almeida e Nicole Oshihisa, por exemplo, decidiram no caminho para o bar que consumiriam apenas cerveja para evitar riscos. Nicole destacou a dificuldade do consumidor controlar a autenticidade das garrafas, mas que vai passar a conferir procedência.

Até adeptos dos destilados alteraram hábitos. Luiza Silva preferiu uma caipirinha feita com cachaça, considerada segura pelo estabelecimento, em vez de vodca ou gin.

O servidor Christopher Martins esteve em um bar para um reencontro, optando pela cerveja após perder um conhecido vítima do metanol. Disse que manterá a escolha até se sentir seguro.

O medo se espalha nas redes sociais e WhatsApp, com supostas listas de estabelecimentos envolvidos e relatos de vítimas circulando. Um alerta incentivou evitar happy hour com destilados após um bar nobre ser interditado.

Diante das preocupações, a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel-SP) iniciou campanha para que proprietários reforcem protocolos. Gabriel Pinheiro, diretor da entidade, afirmou que são poucos os responsáveis pela adulteração e defendeu rigor na punição.

Durante a interdição do bar Ministrão, onde uma mulher perdeu a visão após ingerir um drinque, a Vigilância Sanitária constatou que o bar comprou bebidas de um vendedor informal, sem nota fiscal. O proprietário admitiu a compra fora dos fornecedores oficiais, justificando a dificuldade de acesso. Pinheiro manifestou surpresa e reforçou que os protocolos são severos.

Para preservar reputações, bares e restaurantes têm emitido notas públicas sobre segurança e alguns suspenderam a venda de destilados preventivamente enquanto as investigações continuam.

São ao menos 37 suspeitas de intoxicação por metanol em São Paulo nas últimas semanas, incluindo as seis mortes. Dez casos foram confirmados e 27 seguem em investigação. O óbito mais recente aconteceu em São Bernardo do Campo, que contabiliza outras três mortes.

Seis estabelecimentos foram interditados pela Vigilância Sanitária no estado, incluindo bares na capital e na Grande São Paulo, além de uma distribuidora em Barueri. Uma distribuidora teve sua inscrição estadual suspensa e outras estão sob análise.

Também foram apreendidas 128 mil garrafas de vodca lacradas em Barueri, aguardando documentação, e 802 garrafas foram recolhidas entre distribuidoras e bares.

Em Pernambuco, a polícia investiga a origem de uma garrafa de uísque contaminada, vinculada à morte de dois homens e cegueira de outro. Segundo o delegado, a bebida pode ter vindo de São Paulo, mas relatos são contraditórios.

Um quarto caso fatal foi confirmado na região, envolvendo um homem de 30 anos que esteve internado no Hospital Mestre Vitalino.

O Ministério da Saúde espera aumento no número de casos suspeitos e monitora notificações estaduais e municipais diariamente. O ministro Alexandre Padilha pediu atenção em todo o país.

A Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), do Ministério da Justiça, notificou estabelecimentos suspeitos, dando prazo de 48 horas para esclarecimentos.

No âmbito legislativo, o presidente da Câmara dos Deputados anunciou votação urgente para ampliar de quatro para oito anos a pena para falsificação de bebidas.

Na Assembleia Legislativa de São Paulo, parlamentares apresentaram projetos que obrigam trituração de vidros descartados e punem estabelecimentos que comercializarem bebidas adulteradas, sem previsão para apreciação.

(Reportagem sob supervisão de Alfredo Mergulhão)

Créditos: O Globo

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