Intoxicação por metanol provoca mudanças em eventos e alerta em São Paulo
O aumento dos casos de intoxicação por metanol devido ao consumo de bebidas alcoólicas adulteradas tem gerado impactos significativos no setor de eventos, que abrange desde casamentos até festas corporativas.
Profissionais do setor relataram que clientes têm demonstrado preocupação e, em muitos casos, optado por cancelar a oferta de destilados ou adaptar os cardápios de bebidas servidas.
Tamara Barbosa, assessora de eventos corporativos, comentou que teve que negociar soluções diferenciadas para dois eventos previstos para a próxima semana na capital paulista. Ela destacou o desafio de não apenas buscar alternativas, mas também de transmitir segurança aos convidados frente às notícias sobre contaminação.
“As notícias falsas complicaram bastante, pois mesmo que confiemos na procedência dos fornecedores, surgem relatos de que até bares reconhecidos apresentaram casos, o que gera uma histeria coletiva. Não basta montar um bar com drinks não destilados, as pessoas precisam se sentir razoavelmente seguras”, afirmou Tamara.
Ela relatou ter passado a semana procurando alternativas. “Mesmo fornecedores com nota fiscal não conseguem garantir a tranquilidade do cliente nem dos convidados, criando uma cadeia complexa. Nosso papel é mediar interesses e apoiar fornecedores.”
Heloísa Hernandez Juliato, sócia da Babi Leite Eventos, também afirmou o aumento da preocupação dos clientes. “Temos buscado garantir que trabalhamos apenas com empresas sérias e que compram diretamente de fornecedores confiáveis”, explicou.
Ela acrescentou que, diante do cenário, têm sugerido alternativas criativas para os bares dos eventos, valorizando drinks baseados em vinho, espumante e outras bebidas não associadas a riscos, assegurando variedade, sofisticação e segurança aos convidados.
Segundo Heloísa, não houve cancelamento de bares em casamentos assessorados, mas ajustes foram necessários para aumentar a quantidade das bebidas alternativas, mantendo sempre a procedência oficial das garrafas.
A cerimonialista Mayara Zanetti, com 18 anos de experiência, relatou mudanças de última hora em um evento em São Paulo e afirmou que futuras festas terão a exigência rigorosa de comprovação da origem das bebidas.
“Buscamos sempre fornecedores confiáveis, mas agora exigimos nota fiscal detalhada, bebidas lacradas e lote identificado, o que é fundamental e serve de alerta para todos”, comentou.
A Associação Brasileira de Eventos (Abrafesta) manifestou preocupação com os casos recentes de contaminação por metanol em bebidas servidas em eventos e bares, especialmente após registros de óbitos em São Paulo e no ABC Paulista.
A entidade ressaltou a necessidade de uma abordagem preventiva, enfrentando as causas das falsificações e a operação irregular no mercado, e destacou a proposta de certificação setorial em conformidade fiscal, técnica e sanitária para garantir segurança.
Para combater a crise atual, a Abrafesta criou um grupo de trabalho dedicado à aquisição de bebidas adulteradas para desenvolver diretrizes práticas, auditoria, capacitação, protocolos de segurança e mecanismos de denúncia.
O número de casos notificados de intoxicação por metanol no Brasil chegou a 113, incluindo confirmados, suspeitos e mortes, conforme balanço do Ministério da Saúde divulgado em 3 de outubro de 2025.
Bahia, Paraná e Mato Grosso do Sul são estados que notificaram seus primeiros casos em investigação. No país, há 11 casos confirmados e 102 sob investigação.
O metanol, usado industrialmente, é altamente tóxico quando ingerido, podendo causar danos ao fígado, cérebro, nervo óptico, insuficiências pulmonares e renais, cegueira, coma e morte.
Para minimizar os impactos, o Ministério da Saúde, em parceria com a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares, adquiriu 4,3 mil ampolas de etanol farmacêutico, antídoto para intoxicação, e está comprando mais para garantir o estoque do SUS.
A maior concentração de casos está na capital paulista, com 48 em investigação e 8 confirmados, enquanto em outras regiões há registros mais isolados.
Diversas vítimas tiveram suas vidas profundamente afetadas após consumir bebidas adulteradas. Entre elas, Rafael Anjos Martins, de 28 anos, encontra-se em coma desde 1º de setembro após consumir gin comprado em adega da Zona Sul de São Paulo.
Outros amigos que consumiram a mesma bebida também apresentaram sintomas graves, como Nathalia Carozzi Gama, que teve visão afetada.
Radharani Domingos, designer de interiores de 43 anos, perdeu completamente a visão após tomar caipirinhas feitas com vodca adulterada em um bar na região nobre de São Paulo, que foi interditado.
Bruna Araújo de Souza, de 30 anos, agravou-se após beber vodca com suco de pêssego em São Bernardo do Campo e permanece em estado grave internada.
Wesley Pereira, de 31 anos, entrou em coma após consumir uísque adulterado em festa na Zona Sul da capital e sofreu diversas complicações, incluindo perda da visão e AVC.
O advogado e empresário Marcelo Lombardi, de 45 anos, morreu após ingerir vodca adulterada adquirida em adega. Ele apresentou falência múltipla dos órgãos, sendo o metanol a causa da intoxicação no atestado de óbito.
As autoridades continuam investigando os casos e os locais de venda das bebidas adulteradas, que resultaram em apreensões e medidas de interdição.
O setor de eventos destaca a importância do uso de produtos com procedência comprovada, garantindo a segurança e a confiança dos participantes das festas e cerimônias.
Créditos: g1