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Famílias de reféns do Hamas vivem expectativa de acordo entre grupo e Israel

Famílias dos reféns mantidos pelo Hamas enfrentam uma angústia prolongada enquanto esperam por possíveis acordos de libertação. Yuval Heled, que é parceiro de uma das vítimas, destaca os graves danos físicos e mentais sofridos pelos reféns. A situação se agrava pelo conflito militar em Gaza, que coloca em risco a segurança dos sequestrados.

A história do estudante nepalês Bipin Joshi exemplifica a luta global para libertar inocentes presos nesse conflito.

O plano do ex-presidente Donald Trump para encerrar a guerra aumentou a expectativa entre as famílias dos reféns retidos em Gaza. Após o Hamas aceitar libertá-los e iniciar discussões para um acordo de paz, Israel interrompeu neste sábado sua ofensiva para capturar a Cidade de Gaza, atendendo ao apelo de Trump para cessar os bombardeios. Negociações indiretas devem começar na segunda-feira, no Egito.

Em breve pronunciamento à nação, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, declarou esperar “anunciar nos próximos dias o retorno de todos os reféns”.

O sofrimento das famílias ultrapassa fronteiras. Em Israel, Yuval Heled, padrasto de Na’ama Levy — que foi libertada em janeiro — relata as marcas emocionais e físicas deixadas pela experiência de cativeiro e alerta para o risco de morte dos que permanecem em Gaza. No Nepal, familiares do estudante Bipin Joshi mantêm uma campanha internacional para sua libertação, mesmo diante da instabilidade política em seu país.

Heled revelou ao jornal Haaretz que a situação de ter alguém próximo nas mãos do Hamas afeta não só a família imediata, mas também parentes e amigos próximos. Ele tentou agir nos bastidores, negociando com quem era possível, mas enfrentou resistência. Como professor e especialista em fisiologia, ofereceu consultoria ao Fórum de Reféns e Famílias Desaparecidas.

Para Heled, o risco de morte dos reféns é real e exige um acordo imediato. Ele explica que o “triângulo perigoso” envolve a condição dos reféns, o comportamento dos sequestradores e o ambiente em que se encontram, tudo agravado pelo fator tempo, determinando o destino deles.

O especialista alerta que os reféns apresentam deterioração física severa, como perda extrema de peso, falência de órgãos e imunidade debilitada. Ressalta ainda os impactos invisíveis na saúde mental, tornando a sobrevivência frágil.

Segundo ele, há evidências de tortura e os reféns estão no limite.

Na’ama Levy, em discurso recente na Assembleia Geral da ONU, descreveu os túneis de Gaza como “sufocantes, úmidos e infestados de mofo”, onde respirar fundo era impossível. Libertada em janeiro durante um acordo de cessar-fogo, ela recorda que o maior medo no cativeiro eram os bombardeios israelenses, com explosões que faziam o chão tremer e paralisavam seu corpo.

Para ela, estar escondida acima do solo era horrível, mas nada comparado ao terror e à escuridão dos túneis, onde muitas pessoas inocentes ainda permanecem detidas.

Heled também denuncia que o tempo prolongado mina a saúde dos reféns e desgasta a força das famílias, que sofrem com um “efeito espectador” e o crescimento da apatia social. Apesar da alegria e alívio pela libertação de Na’ama, ele aponta que as cicatrizes emocionais permanecem.

Ele critica a apatia, principalmente entre líderes e tomadores de decisão, que prejudica o avanço do acordo.

Em Israel, há o temor de que o avanço militar promovido por Netanyahu em Gaza ponha em risco a segurança dos reféns capturados pelo Hamas no ataque de 2023.

Naquele ataque, cerca de 1.200 pessoas foram mortas e cerca de 250 sequestradas, das quais 48 permanecem em cativeiro, incluindo 22 já declaradas mortas pelo Exército. A ofensiva israelense em Gaza causou mais de 65 mil mortes palestinas desde o início do conflito, segundo autoridades locais, sem distinguir entre civis e combatentes.

A angústia das famílias também recai sobre Bipin Joshi, estudante nepalês sequestrado pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, num assentamento no sul de Israel.

Sua família tem promovido uma campanha desesperada para trazê-lo de volta a seu vilarejo nas montanhas do Himalaia, a milhares de quilômetros do conflito.

No entanto, os recentes protestos anticorrupção no Nepal, que derrubaram o governo em setembro, colocaram em dúvida os esforços diplomáticos para sua libertação. O novo governo de Katmandu enfrenta ainda o desafio de reestruturar os ministérios, tornando o Ministério das Relações Exteriores uma sombra do que era anteriormente.

A mãe de Joshi, Padma Joshi, em entrevista ao New York Times, declarou orar diariamente pela vida do filho, ressaltando que ele é um estudante inocente que não está envolvido na guerra.

Em 2023, Joshi deixou o Nepal para estudar e trabalhar em uma área rural de Israel, perto da fronteira com Gaza. Menos de três semanas após sua chegada, homens armados do Hamas invadiram um estábulo onde ele estava abrigado, matando dezenas e levando Joshi como refém.

Desde então, a família tem recebido pouquíssimas informações e apenas um vídeo apareceu mostrando alguém parecido com Joshi em Gaza.

No mês anterior, o Hamas divulgou uma foto de 48 reféns ainda em cativeiro, entre eles Joshi, pedindo ao mundo que se despedisse. Contudo, seu nome não apareceu na lista dos 20 reféns vivos mencionados por Netanyahu na ONU.

Apesar disso, os parentes não o esquecem. Desde o sequestro, fazem viagens longas até Katmandu para pressionar autoridades do governo, buscando articular negociações com países árabes, especialmente o Catar, para contato com o Hamas.

Em agosto, a mãe e irmã de Joshi visitaram Israel e Nova York para buscar apoio e visibilidade ao caso, participando de manifestações e da Assembleia Geral da ONU.

Sua irmã, Pushpa Joshi, que tinha 18 anos na época do sequestro, ainda tenta se comunicar por mensagens e mantém a esperança de reencontrar o irmão em breve para juntos realizarem sonhos e viver momentos felizes novamente.

Joshi era apaixonado por futebol, aventureiro, altruísta e talentoso em poesia. Um poema que escreveu para a mãe em seu diário foi enviado à família, traduzido pela irmã, expressando seu amor e saudade.

Além do relato, o texto traz informações globais sem vínculos promocionais.

Reportagem com o New York Times.

Créditos: O Globo

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