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Cessar-fogo destaca forte influência do Catar na política de Trump nos EUA

Uma combinação de otimismo e preocupação dominou o cenário internacional com o acordo de cessar-fogo entre Israel e Hamas, que teve início em 10 de outubro de 2025. Porém, a euforia pela trégua ofuscou um movimento geopolítico em curso: o crescimento da influência do Catar sobre os Estados Unidos.

Recentes acontecimentos refletem essa realidade, como o pedido de desculpas exigido ao primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, pelo ataque realizado em setembro a Doha, situação possivelmente desconfortável para a autoridade israelense. Além disso, o presidente americano Donald Trump assinou uma ordem executiva que garante a segurança do Catar contra qualquer agressão externa, declarando que um ataque ao país será equiparado a um ataque aos Estados Unidos, semelhante ao artigo 5 do tratado da Otan.

Doha tem sido o principal refúgio do Hamas no Oriente Médio, especialmente após os ataques terroristas de 7 de outubro de 2023 e as subsequentes operações israelenses na Faixa de Gaza. Muitos militantes encontraram no Catar proteção diante da pressão israelense. O país mantém fortes laços com o Irã em sua trajetória histórica.

A aproximação entre o governo Trump e o Catar, mesmo diante da clara condenação americana ao terrorismo e das tensões com Teerã, sinaliza que Doha exerce forte influência sobre a política republicana na região, podendo limitar interesses israelenses.

Ksenia Svetlova, diretora-executiva da Organização Regional pela Paz, Economia e Segurança (Ropes) e ex-parlamentar israelense, destacou em artigo no Times of Israel a formação de três blocos informais no Oriente Médio: o eixo iraniano com seus grupos terroristas, o eixo moderado com países como Arábia Saudita e Egito, e o eixo Catar-Turco, apoiador da Irmandade Muçulmana e do Hamas.

Este último eixo frequentemente se opõe ao bloco saudita-egípcio, ao mesmo tempo em que abriga forças e investimentos dos Estados Unidos.

Embora Trump pudesse fortalecer a aproximação com a Arábia Saudita devido a negócios regionais, sua proposta de fevereiro, chamada “Riviera de Gaza”, gerou desentendimentos com o Egito, mediador do conflito Israel-Hamas, levando o presidente egípcio, Abdel Fatah al-Sissi, a cancelar uma viagem a Washington.

Durante esses eventos, o Catar permaneceu sem sofrer críticas ou sanções do governo Trump. Em maio, Trump visitou Doha e recebeu um Boeing 747 como presente para uso presidencial. Doha também atua como mediador no conflito Israel-Hamas.

Investigação do Departamento de Educação dos EUA, realizada em 2020, revelou que universidades americanas receberam mais de US$ 6,6 bilhões em financiamento externo, incluindo recursos do Catar, China, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita. O relatório, do primeiro governo Trump, apontou esse financiamento como risco à segurança nacional. Harvard, Stanford e MIT estiveram entre as beneficiadas, com Harvard recebendo cerca de US$ 7 milhões do Catar entre 2012 e 2019.

Anos depois, esses centros acadêmicos foram palco de protestos anti-Israel, incluindo episódios de antissemitismo.

Além dos investimentos educacionais, o Catar é um aliado militar estratégico dos EUA, hospedando a maior base americana no Oriente Médio, Al Udeid, que sofreu ataque iraniano em 2025.

No mesmo dia do início do cessar-fogo, os EUA anunciaram a instalação da primeira base aérea do Catar em solo americano, reforçando a cooperação de defesa bilateral. Apesar da preocupação com os laços do Catar com o Hamas, Doha permanece essencial para a presença militar americana na região.

Em 2017, Trump chegou a boicotar o Catar, declarando-o financiador do terrorismo, mas semanas depois apoiou a mediação para evitar seu isolamento, devido à importância da base militar. A relação política e econômica entre Washington e Doha inclui também investimentos em imóveis ligados à família Trump, como resgate de propriedades da Kushner Companies, relacionados ao genro do presidente, indicando influência financeira do Catar.

Desde o segundo mandato, Trump mantém uma postura amistosa com o Catar, elogiando seu emir, xeque Tamim bin Hamad Al Thani, por apoio a planos de paz no Oriente Médio.

A influência do Catar, impulsionada por sua riqueza, tornou-se uma ferramenta estratégica nas negociações com os EUA e outras potências. Trump não condenou a posição do Catar sobre o Hamas, embora Doha não tenha pressionado o grupo para desarmar ou liberar os reféns desde o início do conflito.

Créditos: Gazeta do Povo

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