Países árabes pressionam EUA por cessar-fogo após ataque israelense no Catar
Após um bombardeio israelense no Catar, países árabes têm usado seus laços com os Estados Unidos para pressionar o governo de Donald Trump a intervir contra o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, enfraquecendo sua posição para negociar um cessar-fogo. A crise humanitária na Faixa de Gaza se intensifica, com estimativas de até 10 mil corpos sob os escombros. Ao mesmo tempo, o grupo Hamas mobiliza suas forças e os EUA anunciaram a criação de uma nova base aérea no Catar, localizada em Idaho, indicando tensões globais crescentes.
O caminho para a possível libertação dos reféns na Faixa de Gaza – mantidos há mais de dois anos após o ataque terrorista do Hamas contra Israel – começou semanas antes da rodada final de negociações no Egito e da proposta-ultimato do presidente Trump para o fim do conflito. O ataque israelense, em 9 de setembro, contra líderes do Hamas em um bairro residencial de Doha, capital do Catar, foi um ponto de virada que mudou a dinâmica das negociações. Este incidente forçou Washington, os países árabes e outras forças regionais a pressionar decisivamente as partes envolvidas para retomar o diálogo diplomático.
O historiador João Miragaya, mestre pela Universidade de Tel Aviv e colaborador do Instituto Brasil-Israel, destaca que, provavelmente, o acordo de cessar-fogo atual só foi possível devido ao ataque israelense ao Catar, que é um dos principais aliados dos EUA e intermediador das negociações. Este ataque criou uma coalizão pró-cessar-fogo que agiu de forma coordenada com os EUA.
O bombardeio em um próspero emirado do Golfo aprofundou a sensação de vulnerabilidade entre os países da região, que já observavam as ações militares de Israel em territórios como Iêmen, Irã, Líbano e Síria. Também provocou constrangimento para Trump, que viu Israel violar a soberania de um aliado importante, o Catar, que abriga a maior base americana no Oriente Médio.
Embora as nações árabes e islâmicas tenham pouca influência direta para mudar as ações de Israel em Gaza, elas passaram a pressionar Trump para que influenciasse Netanyahu, explorando os laços dos EUA com os países da região para alcançar concessões.
Desde seu primeiro mandato, Trump tem dado atenção à relação com as monarquias do Golfo, incluindo Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Kuwait, Omã e Emirados Árabes Unidos (EAU). Ele escolheu Riad para suas primeiras viagens internacionais em 2017 e 2025, exceto uma visita a Roma para as exéquias do Papa Francisco, anunciando acordos comerciais bilionários. Doha e Abu Dhabi também fizeram parte das agendas de Trump neste ano, com encontros simbólicos, como o do presidente americano com Ahmed al-Sharaa, ex-membro da Al-Qaeda e atual líder sírio. Em 2020, Trump intermediou os Acordos de Abraão entre Israel, Bahrein e EAU, buscando normalizar as relações entre árabes e israelenses. Segundo levantamento da BBC Brasil, os EUA mantêm presença em ao menos 19 instalações militares no Oriente Médio, das quais 10 são vistas como permanentes, incluindo em Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Egito, EAU, Iraque, Israel, Jordânia, Kuwait e Síria.
Em 15 de setembro, em reunião convocada pelo Catar, a Liga Árabe e a Organização para a Cooperação Islâmica uniram parceiros como Paquistão e Turquia, membro da Otan, em um esforço conjunto para revisar laços com Israel. Desde o ataque, várias rodadas diplomáticas discretas ocorreram entre os países da região e os EUA.
Segundo entrevistas ao New York Times, enquanto Trump tentava manifestar contrariedade pública ao ataque israelense no Catar sem se afastar de seu apoio a Israel, países como Arábia Saudita, Egito, Catar e Turquia mantinham encontros de alto nível e contato constante com a Casa Branca. Após cerca de 20 dias, Trump anunciou os termos do acordo.
O professor Michel Gherman, da UFRJ, destacou que o ataque israelense a um aliado importante para a Casa Branca fez Trump reconsiderar seu suporte irrestrito à liderança israelense. Netanyahu, ao romper um acordo estratégico regional com o bombardeio em Doha, passou a ser visto como um aliado não confiável.
Além da questão de segurança, alguns países árabes e muçulmanos também se preocupam com o futuro da população palestina e a estabilidade regional ao pressionar os EUA a influenciar Netanyahu. O Egito, que depois do ataque israelense no Catar assumiu as negociações, tem uma longa história de impacto por fluxos migratórios palestinos decorrentes das guerras desde a independência de Israel – mesmo quadro comum a outros países, como Jordânia.
O professor Rodrigo Amaral, da PUC-SP, salienta que essa experiência de país receptor faz o Egito enxergar com tensão a assimilação desses refugiados, mesmo ao apoiar movimentos nacionais por autodeterminação.
Essa preocupação pode ter sido reforçada após uma sugestão de Trump em fevereiro para que a população palestina deixasse Gaza, embora sua proposta atual afirme que ninguém será forçado a sair do enclave.
Com o acordo firmado para a primeira fase do cessar-fogo, o Catar foi citado como um dos garantidores para evitar o retorno do conflito após a liberação dos reféns. A Turquia, também mencionada, emergiu como fator novo nas negociações. O presidente turco Recep Tayyip Erdogan afirmou que Trump pediu ajuda para convencer Hamas a aceitar os termos.
Amaral observa que a Turquia atua como articuladora entre Ocidente e Oriente Médio, contando com capacidade militar significativa e participação na Otan, o que lhe confere influência e poder de barganha.
O formato do acordo, similar a outros que fracassaram no passado, prevê negociações por etapas entre Israel e Hamas, com novas fases só começando após o cumprimento das anteriores.
Apesar de entraves consideráveis, como o desarmamento do Hamas e a governança do território, especialistas indicam que o acordo atual tem termos de compromisso internacional mais sólidos que os anteriores. Miragaya aponta que a presença da Turquia e do Catar como fiadores deve garantir que os EUA mantenham pressão firme sobre Israel.
Gherman destaca também o enfraquecimento político de Netanyahu perante Trump como ponto favorável, mas ressalta que as motivações pessoais do premiê para prolongar o conflito – como evitar processos judiciais e queda do governo – ainda são fortes.
O professor alerta que Netanyahu deve continuar alternando passos para a paz e para a guerra, avaliando sempre as consequências pessoais que o fariam manter ou boicotar as fases do acordo. Ele só manterá o compromisso se perceber que os prejuízos pessoais serão iguais aos de permanecer em guerra.
Créditos: O Globo