Brasil enfrenta dilema diplomático ante escalada militar dos EUA na Venezuela
A crescente presença militar dos Estados Unidos na Venezuela tem causado apreensão quanto a uma possível intervenção na América do Sul, o que deixa o Brasil em uma posição diplomática delicada. Com tropas americanas instaladas próximo a Caracas, o embaixador Roberto Abdenur destaca que o governo Trump tem como objetivo retomar o controle de poços de petróleo.
O Brasil, que se ofereceu como mediador, defende a soberania da região. Tal cenário pode evoluir para uma crise com repercussões internacionais.
A América do Sul está vivendo uma tensão militar intensa. Os Estados Unidos posicionaram seu maior porta-aviões, um submarino nuclear, dez navios e tropas na região. Caças americanos realizam voos a cerca de 100 quilômetros da capital venezuelana. O governo Trump não justifica essa movimentação como uma ação para defender a democracia, como lembra o embaixador Abdenur, que afirma que a intenção é recuperar poços de petróleo desapropriados no passado.
Para Abdenur, o Brasil desempenhou um papel importante ao oferecer mediação, mesmo que seja improvável que os EUA aceitem. Ele destaca que não existe um lado bom nessa disputa: Nicolás Maduro é considerado um “ditador abominável”, enquanto Trump é visto como “alucinado e inconsequente”.
A diplomacia brasileira historicamente busca manter a região livre de conflitos e de interferência militar externa, iniciativa fortalecida em 1986 com a criação da Zopacas, destinada a evitar a presença estrangeira, principalmente de armas nucleares, no Atlântico Sul.
Embora não acredite em uma invasão em larga escala devido à extensão da Venezuela, Abdenur prevê que podem ocorrer operações militares limitadas para capturar Maduro, que está escondido. Ele ressalta que a grande mobilização militar dos EUA indica que não se trata de uma ação sem propósito.
Até o momento, o fato positivo para o Brasil é a oferta do presidente Lula para mediar o conflito. A iniciativa, segundo Abdenur, é importante, mesmo que Trump não a aceite. Lula tem respondido bem à crise, posicionando-se contra a violação da soberania venezuelana e defendendo a paz e segurança na América do Sul, bandeira tradicional do país.
A situação é grave. A Rússia declarou apoio a Maduro. O Brasil perdeu a parceria estratégica com a Argentina, enquanto o Paraguai firmou um acordo ainda pouco compreendido com os EUA.
Na guerra da Ucrânia, o Brasil tem adotado uma posição considerada pró-Rússia, porém Abdenur acredita que Lula não deveria se abster de condenar qualquer ameaça de intervenção militar russa.
A crise na Venezuela pode se transformar em uma conflagração internacional com impacto amplo, semelhante à crise dos mísseis em Cuba. Maduro, embora seja um autocrata que deseja ver fora do poder, representa a soberania venezuelana que não deve ser violada. Trump, por sua vez, busca o controle dos campos petrolíferos, não por um motivo nobre.
Intervenções militares americanas na América Central já ocorreram no passado, mas nunca houve uma mobilização da escala atual. O porta-aviões Gerald Ford, acompanhado de uma frota poderosa, representa uma preparação para conflito.
De outro lado, Maduro consolidou o poder militar no país, influenciando as Forças Armadas, erosionando a democracia e fortalecendo grupos armados leais.
O governo brasileiro terá que definir sua posição e estratégia diante desse cenário complexo na região.
Créditos: O Globo