Moraes nega ter tratado compra do Banco Master pelo BRB com presidente do BC
O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), divulgou uma nova nota na noite de 23 de dezembro de 2025 em que nega ter conversado com o presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, sobre a aquisição do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB).
O comunicado foi emitido após reportagens indicarem que Moraes teria buscado Galípolo pelo menos quatro vezes, por telefone e presencialmente, para tratar da operação. Em nota anterior, o ministro afirmou que se reuniu com o chefe do BC para discutir os impactos da Lei Magnitsky, sem mencionar o caso do Banco Master.
Moraes explicou que realizou duas reuniões em seu gabinete com Galípolo para abordar os efeitos da Lei Magnitsky, sancionada pelos Estados Unidos contra ele. A primeira ocorreu em 14 de agosto, após a sanção, e a segunda em 30 de setembro, após a aplicação da medida contra sua esposa.
A nota ainda ressalta que Moraes “jamais esteve no Banco Central e que não houve nenhuma ligação telefônica entre eles para esse ou qualquer outro assunto”.
Reportagens da coluna de Malu Gaspar, do jornal O Globo, publicadas em 22 de dezembro, afirmam que Moraes teria procurado Galípolo para obter informações sobre a análise da compra do Banco Master pelo BRB, operação que o BC havia barrado em setembro por falta de viabilidade econômico-financeira.
O contato do ministro com o presidente do BC teria ocorrido paralelamente a um contrato do escritório de advocacia da esposa de Moraes, Viviane Barci de Moraes, com o Banco Master para prestação de serviços jurídicos.
Na primeira nota, Moraes explicou que as reuniões estariam exclusivas para tratar das graves consequências da aplicação da Lei Magnitsky, com foco na manutenção de movimentação bancária, contas correntes e cartões.
O Banco Central também confirmou a realização desses encontros para discutir os efeitos da referida lei.
A Lei Magnitsky, aplicável pelo governo dos Estados Unidos, pune autoridades estrangeiras bloqueando seus bens nos EUA e impedindo negócios com cidadãos e empresas americanas. Moraes e sua esposa foram sancionados em julho, mas foram retirados da lista no início de dezembro após diálogo entre os presidentes Lula e Donald Trump.
Conforme apurado, o escritório de Viviane foi contratado por R$ 130 milhões para serviços jurídicos até 2027, atuando em representações junto a órgãos como BC, Receita Federal, Cade e Congresso.
De acordo com a jornalista Malu Gaspar, Moraes teria pressionado o Banco Central para aprovar a compra do Banco Master pelo BRB, mesmo com indícios de fraudes apontados pelo BC. O ministro teria dito que, se comprovada a fraude, a transação não deveria ser aprovada.
A Lei Orgânica da Magistratura proíbe ministros do STF de exercer controle ou participação societária em empresas, assim como restringe manifestações que possam configurar conflito de interesses.
O Banco Master, fundado em 1974 e reestruturado em 2019 sob o comando de Daniel Vorcaro, promoveu um crescimento acelerado que, a partir de 2022, gerou dúvidas no mercado devido à captação de recursos a custos elevados e investimentos arriscados, dificultando o equilíbrio financeiro.
O banco oferecia Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com remuneração de até 140% do CDI, valor muito acima do habitual, o que sinalizou riscos crescentes. A Polícia Federal investiga indícios de uso dos recursos captados para cobrir déficits e honrar compromissos antigos, mantendo um esquema dependente de entrada constante de novos recursos.
Tentativas de venda da instituição começaram a ser avaliadas em março de 2025, com proposta de venda de 58% do capital ao Banco de Brasília em operação estimada em R$ 2 bilhões.
Essa operação atraiu atenção do Ministério Público do Distrito Federal e do Ministério Público de Contas, que questionaram a falta de transparência e riscos para acionistas do banco público.
Desde 2024, a Polícia Federal investiga o banco por possível criação artificial de carteiras de crédito e registro de ativos de baixa ou inexistente qualidade, distorcendo a real situação financeira.
Entre as irregularidades estão a emissão de cerca de R$ 50 bilhões em CDBs sem garantia de recursos líquidos para futuros pagamentos e operações suspeitas envolvendo créditos adquiridos da empresa Tirreno, revendidos ao BRB por R$ 12,2 bilhões sem documentação necessária durante as negociações de compra.
Em novembro, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master, interrompendo suas atividades, afastando a diretoria e acionando o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para indenizar correntistas e investidores, com limite de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ.
A Justiça bloqueou os bens dos controladores e ex-executivos da instituição, enquanto as investigações prosseguem para apurar responsabilidades civil e criminal.
Créditos: g1