Brigitte Bardot e o legado icônico no filme ‘O Desprezo’ de Godard
Brigitte Bardot, que faleceu aos 91 anos, não foi a primeira escolha para interpretar Camille Javal em ‘O Desprezo’, filme dirigido por Jean-Luc Godard em 1963. Antes dela, Kim Novak, Sophia Loren e Monica Vitti haviam sido consideradas para o papel, mas não aceitaram ou foram descartadas.
A presença de Bardot foi fundamental para o sucesso do filme, chegando a consumir metade do orçamento total devido ao seu cachê, refletindo seu status como o maior símbolo sexual da época, especialmente após a atuação em “E Deus Criou a Mulher”, seis anos antes.
Inicialmente reticente, Godard reconheceu irônicamente que só escalou Bardot porque “faz parte do pacote”, e em sua direção escondeu seus cabelos loiros sob uma peruca morena, desvendando-a logo em sua primeira cena de forma provocante. A personagem Camille questiona o olhar do esposo sobre seu corpo, conduzindo a câmera a destacar seu corpo, especialmente seu famoso traseiro.
O diretor usou essa cena para fazer um comentário sobre o voyeurismo no cinema. O que poderia parecer apenas sensual torna-se uma reflexão sobre o olhar cúmplice e questionador do espectador.
No enredo, acompanhamos Paul Javal, vivido por Michel Piccoli, um escritor contratado para desenvolver um roteiro baseado na ‘Odisseia’ de Homero para o cineasta Fritz Lang, interpretado por ele mesmo. O produtor americano Jeremy Prokosch, papel de Jack Palance, complica a situação ao integrar pressões externas.
O relacionamento conjugal entre Paul e Camille se deteriora à medida que ela percebe o desprezo do marido, que não hesita em deixá-la sozinha com o produtor. A trama, conduzida em três atos claros, expõe a crise pessoal e doméstica envolvida em meio aos debates artísticos e culturais da época.
O filme contrasta a tradição europeia, representada por Lang, e a americana, encarnada por Prokosch, ao discutir diferentes leituras da mitologia grega e da civilização ocidental, simbolizadas na viagem de Ulisses.
Este panorama ocorre em um cenário dramático, como a casa de Capri, ressaltando a tensão e a crise conjugal que refletem as transformações dos anos 1960, período no qual Godard e Bardot foram influentes.
Nos anos seguintes, enquanto Godard se aproximou de movimentos políticos à esquerda e manteve uma cinefilia rigorosa até sua morte aos 91 anos, Bardot retirou-se do cinema ainda jovem, voltando-se a posições políticas controversas que a tornaram uma figura controversa no contexto atual das discussões sociais.
Rever ‘O Desprezo’ permite compreender por que este filme se tornou uma peça-chave na história do cinema, principalmente pela força e olhar que Bardot aporta em sua atuação, mais do que por qualquer outra característica do filme.
Créditos: Folha de S.Paulo