EUA realizam operação na Venezuela e capturam Nicolás Maduro
Neste sábado, 3, os Estados Unidos efetuaram bombardeios na Venezuela e capturaram o ditador Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores. Donald Trump anunciou que Washington assumirá o governo venezuelano até uma transição, sem detalhar o funcionamento dessa etapa.
Essa operação lembra ações anteriores dos EUA, como a invasão ao Panamá em 1989 e ao Iraque em 2003. Analistas consultados pelo Estadão ressaltam que a operação viola leis internacionais e gera incertezas para a Venezuela e a região.
Maduro e sua esposa foram levados para os EUA a bordo de um navio de guerra, onde ele deve ser julgado em Nova York por narcoterrorismo e outros crimes.
Xavier Rodríguez-Franco, cientista político venezuelano, classifica a ação como um precedente histórico, a primeira intervenção militar desde o século XIX na região. Regiane Bressan, professora de Relações Internacionais da Unifesp, observa que o ataque não teve aprovação do Congresso americano e infringe o direito internacional.
Segundo Bressan, os EUA apontam a retomada da democracia na Venezuela como justificativa, mas isso fracassou em outras ocasiões, como no Iraque. Ela avalia que o principal objetivo dos EUA é manter o acesso ao petróleo venezuelano, reforçado pelas declarações de Trump que destacou o interesse das companhias petrolíferas americanas, incluindo a Chevron, autorizada a operar na Venezuela.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, manifestou preocupação, afirmando que a ação representa um precedente perigoso para a região e pediu respeito ao direito internacional.
Essa intervenção tem semelhanças com a invasão ao Panamá para capturar Manuel Noriega e desencadeia repercussões desconhecidas.
Trump afirmou que os EUA governarão o país até uma transição segura, sem esclarecer se haverá presença militar ou administração civil americana em colaboração com venezuelanos.
Trump também afirmou que a oposição liderada por María Corina Machado não participará do novo governo e sugeriu que a vice-presidente Delcy Rodríguez estaria colaborando com os EUA, o que ela negou.
Segundo Rodríguez-Franco, a aparente falta de controle das forças de segurança pelo regime indica a influência de dissidências militares apoiando a operação americana. Bressan aponta que os EUA podem apoiar um dissidente militar para governar, excluindo o governo atual e principais opositores conhecidos.
María Corina Machado demorou cerca de 10 horas para se manifestar, celebrando a captura de Maduro e afirmando que seu grupo está pronto para assumir o poder. Em 2024, Edmundo González Urrutia venceu eleições contestadas por Maduro, que reivindicou a vitória sem provas. Trump afirmou que Machado não tem o respeito dos venezuelanos.
O cientista político avalia que Trump parece querer alinhamento com o clã dos irmãos Rodríguez, mas considera isso especulativo.
Os desafios para o futuro governo serão enormes, diante do colapso econômico da Venezuela. A estatal petrolífera PDVSA, principal fonte de receita, está destruída.
Bressan afirma que o principal desafio será restaurar a democracia na Venezuela, promovendo crescimento econômico sustentável, reduzindo a dependência do petróleo e fortalecendo instituições democráticas para garantir alternância de poder.
Países vizinhos, como Brasil e Colômbia, monitoram a situação. O presidente colombiano Gustavo Petro criticou os bombardeios e a captura. O governo brasileiro também condena violações à soberania venezuelana, mas com postura mais cautelosa.
O presidente Lula afirmou que os ataques ultrapassam uma linha inaceitável e são um precedente perigoso para a comunidade internacional. Bressan destaca que o Brasil enfrenta dificuldades para apoiar Maduro, mas continuará defendendo a soberania venezuelana.
Desde dezembro, a política externa dos EUA voltou seu foco para a América Latina, buscando retomar influência plena sobre a região. Bressan alerta que países não alinhados podem sofrer retaliações.
Rodríguez-Franco afirma que há responsabilidade compartilhada de governos democráticos que não agiram diante da situação.
A ação também acende um alerta sobre regimes autoritários como Cuba e Nicarágua, que podem ser alvos de futuras pressões. Bressan destaca que interesses econômicos são o motor dessas ações, direcionadas a conter a influência da China e da Rússia na região.
Rodríguez-Franco ressalta que conflitos semelhantes ocorrem em países que confrontam os EUA, como Irã, Rússia e outros.
Essa operação marca um momento crítico na política da América Latina e terá consequências complexas para a estabilidade regional e internacional.
Créditos: Estadão