Internacional
15:11

EUA planejam assumir controle do petróleo da Venezuela e investir em indústria

No sábado (3), o presidente Donald Trump declarou que os Estados Unidos tomariam o controle das vastas reservas de petróleo da Venezuela, além de mobilizar empresas americanas para investir bilhões na recuperação da indústria petrolífera do país, atualmente debilitada.

A Venezuela detém reservas de 303 bilhões de barris de petróleo bruto, o que corresponde a cerca de um quinto das reservas globais, conforme dados da Administração de Informação Energética dos EUA (EIA). Este recurso terá papel decisivo no futuro venezuelano.

Apesar de os contratos futuros de petróleo não serem negociados aos fins de semana, tornando incerto o impacto imediato nos preços, Trump afirmou que os EUA assumiriam temporariamente a gestão do governo venezuelano.

“Vamos fazer com que nossas gigantescas companhias petrolíferas dos Estados Unidos — as maiores do mundo — atuem, gastem bilhões de dólares e reparem a infraestrutura petrolífera, que está em estado crítico”, declarou Trump durante uma coletiva em Mar-a-Lago.

Uma reestruturação sob liderança americana poderia aumentar significativamente o fornecimento de petróleo venezuelano, atraindo investidores ocidentais e servindo como nova fonte produtiva. Isso também poderia ajudar a controlar os preços, embora preços mais baixos possam desestimular algumas produtoras americanas.

Mesmo com o reestabelecimento imediato do acesso internacional, levaria anos e custos elevados para que a produção petrolífera venezuelana retornasse à sua plena capacidade. A PDVSA, estatal venezuelana de petróleo e gás natural, aponta que seus oleodutos não são atualizados há 50 anos, e a modernização da infraestrutura exigiria cerca de 58 bilhões de dólares.

Phil Flynn, analista sênior do Price Futures Group, classificou a situação como um potencial evento histórico, apontando que os regimes de Maduro e Chávez prejudicaram severamente o setor petrolífero venezuelano.

Apesar de possuir a maior reserva comprovada de petróleo do mundo, a Venezuela produz apenas cerca de 1 milhão de barris diários, ou cerca de 0,8% da produção global, menos da metade do volume de antes de 2013, quando Maduro assumiu o poder, e menos de um terço dos 3,5 milhões de barris produzidos antes da ascensão do regime socialista.

Sanções internacionais contra o governo venezuelano e uma crise econômica profunda foram fatores que contribuíram para o declínio da indústria petrolífera, assim como a falta de investimentos e manutenção, conforme a EIA. A infraestrutura energética do país está em deterioração constante, e a capacidade de produção caiu drasticamente.

Atualmente, a Venezuela não produz petróleo em quantidade suficiente para impactar significativamente o mercado.

Este ano, os preços do petróleo têm se mantido estáveis devido a preocupações com excesso de oferta. A OPEP aumentou a produção, porém a demanda diminuiu levemente diante das dificuldades econômicas globais, incluindo inflação e crise de acessibilidade pós-pandemia.

O preço do petróleo americano chegou a passar brevemente dos 60 dólares por barril quando o governo Trump começou a confiscar petróleo venezuelano, mas desde então caiu para cerca de 57 dólares por barril. A reação do mercado deve ser moderada caso os investidores vejam a situação como negativa para o abastecimento.

“Psicologicamente, pode haver um leve impulso, mas o petróleo venezuelano pode ser facilmente substituído por outros produtores globais”, afirmou Flynn.

O petróleo venezuelano é pesado e ácido, exigindo equipamentos e expertise específicos para extração e refino. Empresas internacionais possuem essa capacidade, mas estão atualmente impedidas de operar no país.

Os EUA, maiores produtores mundiais, extraem predominantemente petróleo leve e doce, adequado para gasolina, mas limitado para outros derivados. O petróleo pesado e ácido da Venezuela é fundamental para produtos como diesel, asfalto e combustíveis industriais, especialmente num cenário global de escassez de diesel, parcialmente causada pelas sanções ao petróleo venezuelano.

Explorar essas reservas seria benéfico para os EUA, dada a proximidade geográfica e o custo relativamente baixo do petróleo venezuelano, apesar de sua viscosidade e demanda por refino especializado. Muitas refinarias americanas foram projetadas para processar esse tipo de petróleo e operam com maior eficiência utilizando-o.

Flynn afirmou que, se tudo correr conforme o esperado e as empresas americanas forem autorizadas a reconstruir a indústria, o mercado global de petróleo poderá ser transformado.

Trump classificou o setor petrolífero venezuelano como “um fracasso total”, salientando que a produção atual está muito aquém do potencial do país.

“Nossas gigantescas companhias petrolíferas estarão entrando, investindo bilhões e recuperando a infraestrutura para gerar lucro”, completou o presidente.

Ainda não é possível prever claramente como a intervenção dos EUA afetará os preços de energia.

Bob McNally, presidente da consultoria Rapidan Energy Group, acredita que o impacto será modesto, a menos que ocorram instabilidades sociais graves ou caos, o que causaria um efeito maior. Segundo ele, o desafio estará em quão rápido uma Venezuela pró-EUA conseguiria ampliar sua produção, entendendo que as expectativas possam antecipar a capacidade real.

McNally destaca que a Venezuela pode se tornar um protagonista relevante no mercado, mas não nos próximos 5 a 10 anos.

Os mercados de petróleo reabrem na noite de domingo, e os preços dependerão de a percepção sobre as ações de Trump se confirmar, segundo Helima Croft, chefe de estratégia global de commodities na RBC Capital Markets.

Croft ressalta que tudo depende de a Venezuela romper o histórico recente de tentativas de mudança de regime lideradas pelos EUA. Ela também observa que Trump indicou que os EUA retornaram ao “modo de reconstrução nacional”, com empresas americanas feitas para investir na revitalização do setor petrolífero, mas destaca a necessidade de mais detalhes antes de se declarar vitória.

Créditos: CNN Brasil

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