Trump e oposição venezuelana: desafios da transição pós-Maduro
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, surpreendeu recentemente ao declarar que os EUA irão administrar a Venezuela, após a prisão de Nicolás Maduro. Em suas declarações, ocorridas em 3 de janeiro, mencionou a palavra “transição”, mas não fez referência a eleições nem ao comando da oposição liderada por María Corina Machado, premiada com o Nobel da Paz, e Edmundo González Urrutia, considerado por muitos o presidente eleito após as eleições venezuelanas de 28 de julho de 2024.
Essas eleições foram marcadas por denúncias de fraude do Conselho Nacional Eleitoral, que proclamou Maduro vencedor sem apresentar os registros oficiais, que até hoje não foram divulgados. Embora a oposição tenha recolhido cópias das atas que confirmariam sua vitória, a esperada troca de governo e um possível ataque dos EUA em território venezuelano não ocorreram.
No dia 5 de janeiro, Delcy Rodríguez, que era vice-presidente, assumiu interinamente a presidência da Venezuela, conforme indicado pela Constituição local. Rodríguez é vista como uma aliada fiel a Maduro e participante do seu círculo de poder. Corina Machado, em entrevista à Fox News, descreveu-na como responsável por tortura, perseguição, corrupção e tráfico de drogas, além de destacar sua proximidade com países como Rússia, China e Irã, indicando que não é confiável para investidores internacionais e rejeitada pelo povo venezuelano.
Machado elogiou as ações do presidente Trump e declarou querer retornar à Venezuela o quanto antes. Ela defende que a oposição promoveria uma transformação do país em um centro energético das Américas, restabeleceria o Estado de Direito para proteger investimentos estrangeiros e facilitaria o retorno dos venezuelanos que deixaram o país sob mandato de Maduro. Segundo ela, “a transição precisa avançar”.
Antes das declarações de Trump, esperava-se um cenário onde González e Machado ocupassem a liderança da transição, mas esse cenário parece ter perdido força, conforme análise da professora Carmen Beatriz Fernández, da Universidade de Navarra. Embora Machado tenha alinhado seu discurso com o governo Trump e tenha expressado gratidão pelas ações do presidente americano, nunca houve uma aliança sólida entre eles, sendo Marco Rubio o principal interlocutor dos EUA com a oposição venezuelana.
Rubio, como secretário de Estado dos EUA, destacou a ausência da maior parte da oposição dentro da Venezuela e enfatizou a necessidade de focar em realidades imediatas, não em questões de longo prazo. Segundo analistas, essa abordagem pragmática busca garantir uma transição estável e ordenada para evitar mais migração venezuelana, possivelmente com contratos petrolíferos favoráveis a empresas americanas, especialmente com o apoio da nova Assembleia Nacional, controlada pelo PSUV.
Reportagens do The New York Times indicam que o governo Trump avalia que Machado está politicamente isolada e que uma tentativa imediata de substituição do governo Maduro por meio da oposição poderia incrementar a violência no país. Além disso, o foco principal do governo americano é o petróleo venezuelano, que representa as maiores reservas comprovadas do mundo.
Após mais de duas décadas no poder com Chávez e Maduro, o chavismo mantém influência forte nas instituições e nas Forças Armadas, limitando o poder real da oposição. Segundo um analista venezuelano que falou à BBC sob anonimato, uma transição no comando da oposição não ocorreria sem a supervisão de operadores internos, citando como exemplos os processos de transição no Chile e na Espanha, conduzidos por membros do regime anterior.
Esse entendimento causa incômodo na oposição, que age com prudência e paciência, exigindo transparência imediata em questões como a libertação de presos políticos. Edmundo González reforça que a transição democrática só será possível com a libertação incondicional desses presos e conclama as Forças Armadas a respeitar a Constituição e o povo.
Fernández apontou que os EUA parecem apostar num segundo cenário, com Delcy Rodríguez assumindo a transição, possivelmente liderada por um conselho de administração formado por representantes americanos como Trump, Rubio e o secretário de Defesa Pete Hegseth. O apoio internacional inclui a França, que reconheceu a soberania expressa nas eleições de 2024.
Apesar das ações recentes, Fernández afirmou que Machado continua sendo a líder política indiscutível da Venezuela, com aprovação maior que a de alguns ex-presidentes populares do país. Os custos da retirada de Maduro, incluindo perdas materiais e humanas, seriam arcados pelos EUA. Corina Machado está mais protegida do que antes, e, caso haja nova eleição após uma transição bem-sucedida, ela concorreria.
Maduro não está mais no governo, mas a mudança suficiente desejada pela oposição ainda não ocorreu. Corina Machado, González e muitos opositores permanecem no exílio ou enfrentam perseguição, mantendo sua liderança e contato com apoiadores pelas redes sociais, ao menos por enquanto.
Créditos: BBC