Economia
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Acordo Mercosul-UE deve beneficiar agronegócio e indústria brasileira

Com a aprovação do acordo entre Mercosul e União Europeia pelo Conselho Europeu nesta sexta-feira (9), criou-se uma expectativa sobre quais setores da economia brasileira terão mais vantagens com a abertura gradual do mercado europeu. Especialistas indicam o agronegócio como o principal beneficiado no curto prazo, com oportunidades também para indústria, energia e cadeias menos expostas ao comércio com a Europa.

Negociado por 26 anos e com assinatura prevista para 17 de janeiro, o tratado prevê a eliminação de tarifas sobre cerca de 91% do comércio bilateral, além da harmonização regulatória e redução de barreiras não tarifárias, que terá efeitos distribuídos ao longo dos anos.

Analistas concordam que o agronegócio brasileiro será o primeiro a capturar os ganhos mais evidentes do acordo. Produtos como carnes bovina e de frango, açúcar, café, frutas, etanol, suco de laranja, óleos e gorduras vegetais estão em posição favorável para expandir a presença no mercado europeu.

Marcelo Vitali, diretor da agência How2Go, afirma que alguns efeitos serão quase imediatos. A União Europeia é o maior destino das frutas brasileiras, como manga e uva, atualmente ainda com tarifas. Com o acordo, a fruta brasileira competirá em condições semelhantes a de outros países.

Estudos da How2Go indicam impacto positivo para grãos, açúcar, café e alimentos industrializados, segmentos nos quais o Brasil já demonstra alta competitividade internacional.

Mesmo com classificações como produtos sensíveis, as proteínas animais também são apostas. A liberalização não zerará as tarifas e incluirá cotas, mas há expectativa de ganhos em médio prazo.

“Proteínas animais não serão totalmente liberadas, mas tendem a ser grandes beneficiadas ao longo do tempo”, destacou Vitali, citando empresas exportadoras de carne como potenciais vencedoras.

Gesner Oliveira, sócio da GO Associados e professor da FGV, compartilha essa avaliação, incluindo suínos, aves, pescados, alimentos processados, óleos e gorduras entre os setores com impacto positivo direto para a economia brasileira.

Além do agronegócio, o acordo cria espaço para ganhos na indústria. Vitali ressalta o setor químico brasileiro, hoje integrado às cadeias globais, ressaltando que a harmonização de regras e redução de exigências regulatórias podem estimular o comércio tanto quanto a redução de tarifas.

Gesner Oliveira também destaca oportunidades para calçados, artefatos de couro, equipamentos de transporte e metais não ferrosos, segmentos com potencial para aumentar exportações à Europa.

A ApexBrasil reforça que o acordo prevê redução imediata das tarifas para máquinas e equipamentos de transporte, como motores, geradores de energia elétrica, motores de pistão usados em autopeças e aeronaves. Aponta ainda oportunidades para couro, peles, pedras de cantaria, facas e lâminas.

Jorge Viana, presidente da ApexBrasil, observou que mais de um terço das exportações brasileiras para a região são produtos da indústria de processamento, mantendo um comércio de excelente qualidade com a União Europeia.

Outro eixo estratégico é o setor de energia. Oliveira ressalta a complementaridade entre Brasil e Europa, afirmando que o Brasil pode fornecer energia para ajudar a União Europeia a diversificar suas fontes diante de um contexto geopolítico instável.

Os especialistas destacam que o acordo também amplia a concorrência no mercado brasileiro, especialmente em segmentos como máquinas, equipamentos, eletrônicos, vestuário, cosméticos e produtos industriais europeus atualmente com alta tributação.

Fabio Ongaro, vice-presidente financeiro da Italcam, alerta que a abertura comercial não cria vencedores automáticos, premiando estratégia e visão de longo prazo. O impacto dependerá mais das escolhas econômicas feitas após a implementação do tratado.

Estudo da How2Go com empresas espanholas indica oportunidades especialmente em produtos sem substituto local ou com clara diferenciação, como azeites de oliva com denominação de origem, embutidos, carnes curadas, presuntos, queijos curados de ovelha ou mistura, além de conservas de pescado e mariscos.

O levantamento também identifica espaço para bebidas diferenciadas, incluindo destilados, bebidas vegetais, produtos sem álcool e preparados de frutas ou tomate com apelo sensorial ou funcional.

Por fim, o estudo ressalta alta concorrência e menor atratividade em categorias nas quais o Brasil é autossuficiente, como carnes frescas, laticínios industriais, panificação básica, biscoitos, molhos e sucos industriais.

Os efeitos do acordo devem ser graduais, com os primeiros impactos mensuráveis entre dois e quatro anos após a entrada em vigor e ganhos estruturais previstos para o horizonte de sete a dez anos.

No Brasil, os maiores ganhos iniciais concentrar-se-ão no agronegócio, mas o maior efeito transformador será a redução do custo de máquinas, tecnologia e bens de capital europeus, que elevará a produtividade da indústria, segundo Ongaro.

Ele afirmou ainda que o acordo deverá gerar ganhos permanentes de eficiência, com impactos positivos em investimentos, exportações e crescimento no longo prazo, além de aumentar a concorrência no mercado interno brasileiro.

Créditos: InfoMoney

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