Internacional
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Análise sobre a Doutrina Monroe na era Trump e sua influência na América Latina

A América Latina é frequentemente vista como uma área de influência dos Estados Unidos, que determinam os rumos dos países da região conforme seus interesses. Esse tema é abordado pela acadêmica e jornalista britânica Grace Livingstone, autora do livro “America’s Backyard: The United States and Latin America from the Monroe Doctrine to the War on Terror”.

A Doutrina Monroe, criada em 1823 durante o governo do presidente James Monroe, afirmava que qualquer intervenção de potências europeias no hemisfério ocidental seria considerada pelos EUA como uma ameaça direta à sua segurança.

No início do século 20, o presidente Theodore Roosevelt retomou a ideia e afirmou que os EUA poderiam intervir em países da região para estabilizar governos considerados incapazes de cumprir obrigações internacionais, o que ficou conhecido como “corolário Roosevelt”. Essa abordagem adotava o lema de Roosevelt: “fale com suavidade e tenha à mão um grande porrete, assim você irá longe”.

Recentemente, a ação do governo Trump na Venezuela, incluindo bombardeios em Caracas e a prisão de Nicolás Maduro, expôs uma nova vertente da Doutrina Monroe, que Livingstone e outros chamam de “corolário Trump” ou “Doutrina Donroe” — uma junção dos nomes Donald e Monroe.

O próprio governo Trump mencionou a Doutrina Monroe em sua Estratégia de Segurança Nacional publicada em dezembro.

Segundo Livingstone, essa nova Doutrina Monroe difere das versões anteriores, pois os EUA abandonaram a pretensão de agir em prol da democracia. Conforme a acadêmica ligada à Universidade de Cambridge, as ações recentes na Venezuela não têm relação com a defesa do Estado de Direito ou do sistema internacional, mas são focadas em defender os interesses dos EUA, especialmente o controle de recursos naturais e interesses de empresas americanas.

Em 5 de janeiro, enquanto Maduro respondia a um tribunal em Nova York por acusações ligadas ao narcotráfico, o Departamento de Estado dos EUA publicou uma mensagem no X com foto de Trump que fazia referência à Doutrina Monroe, enfatizando que o hemisfério é dos EUA e que o presidente Trump não permitirá ameaças à sua segurança.

Outra diferença na nova Doutrina é o alvo da mensagem: antes, ela se dirigia às potências europeias, enquanto agora é a China, vista como o principal concorrente pelos EUA, que preocupa devido aos seus investimentos econômicos na América Latina.

Livingstone destaca que ainda há diferentes visões dentro do governo Trump sobre a América Latina. O secretário de Estado Marco Rubio mantém uma agenda ideológica, apoiando mudanças de regime, enquanto Trump tem objetivos transacionais e econômicos, focando em abrir mercados para empresas americanas independentemente da ideologia dos governos.

Em entrevista, Livingstone confirma que a estratégia de Trump é reafirmar o poder dos EUA na região, inclusive através do uso da força militar se necessário, para garantir governos alinhados e proteger recursos estratégicos. A nova Doutrina é uma reafirmação da Doutrina Monroe, com um corolário próprio, o “corolário Trump”.

Ela também comenta que a intervenção militar direta na Venezuela é inédita para a América do Sul e diferente das típicas intervenções dos EUA no Caribe e América Central no século 20.

A acadêmica ressalta que as alegações contra a Venezuela, como o tráfico de drogas, não são credíveis segundo dados internacionais, e que o principal interesse dos EUA é o petróleo venezuelano, onde Trump deseja que as empresas americanas tenham acesso livre.

Quanto à reação da América Latina, Livingstone afirma que a melhor resposta seria a união dos países latino-americanos, mas isso é dificultado pela polarização ideológica. Além disso, grupos conservadores dos EUA buscam fortalecer alianças com governos de direita na região.

Sobre a influência chinesa, a China tem investido fortemente na América Latina e mantém relações econômicas que são benéficas para seu crescimento, buscando evitar confrontos diretos com os EUA.

Finalmente, Livingstone comenta que o futuro da Venezuela é incerto, com os militares ainda apoiando o governo chavista e que o risco de conflito prolongado existe. Ela ressalta que investimentos políticos e interesses econômicos sustentam a atual dinâmica, com o governo Trump focado em manter influência e acesso a recursos estratégicos.

Créditos: BBC News Brasil

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