Crítica ao silêncio da esquerda sobre protestos no Irã e luta por liberdade
O discurso antifascista e antiimperialista de parte da esquerda global é uma falsa narrativa. Quando Vladimir Putin ataca a Ucrânia, a culpa é atribuída à vítima, que teria provocado a agressão por tentar se proteger de um autocrata expansionista.
Após o ataque brutal do Hamas em 7 de outubro de 2023, quando quase mil civis israelenses foram assassinados e sequestrados, houve grande manifestação de apoio ao grupo terrorista. Um dia depois, centenas se reuniram em Nova York para louvar a resistência palestina. No Brasil, os protestos duraram três dias, e universidades nos EUA foram palco de manifestações por um mês. Em Londres, 300 mil pessoas protestaram em 11 de novembro.
No entanto, as mulheres iranianas que em 2022 romperam com a tradição e protestaram contra o regime teocrático islâmico não tiveram apoio da mesma esquerda que denuncia misoginia e o patriarcado. Essa incoerência advém do antiamericanismo herdado da Guerra Fria, aliado ao relativismo cultural, que simplifica a narrativa e demoniza os Estados Unidos e seus aliados.
O silêncio dessa parcela ideológica diante dos protestos no Irã, que começaram em 28 de dezembro e vêm sendo cruelmente reprimidos, é reprovável pela falta de coerência e moralidade.
Ainda não se sabe se essa revolta atual atingirá a magnitude das manifestações de 2009, que contestaram fraude eleitoral e foram duramente reprimidas, mas a semelhança crucial é que os protestos envolvem diversas classes sociais e minorias. Entre os iniciadores estão comerciantes dos bazares, que por décadas sustentaram simbolicamente o regime, o que indica uma erosão da base do poder e complexifica a repressão.
Neste momento, os iranianos necessitam de apoio na luta por liberdade, mas não podem contar com essa parte da esquerda que, apesar de se opor ao fascismo e imperialismo, demonstra cumplicidade com regimes opressivos.
Créditos: Folha de S.Paulo