França pede que UE use arma comercial contra EUA por ameaça tarifária na Groenlândia
O presidente francês Emmanuel Macron solicitou que a União Europeia (UE) acione sua mais poderosa ferramenta comercial para responder aos Estados Unidos, depois que o presidente Donald Trump ameaçou aplicar tarifas extras a vários países europeus. A medida decorre da disputa sobre a Groenlândia.
Trump anunciou no sábado (17) que os EUA imporiam uma taxa adicional de 10% sobre mercadorias da França, Alemanha, Reino Unido, Países Baixos, Dinamarca, Noruega, Suécia e Finlândia a partir de 1º de fevereiro. Caso não haja solução, as tarifas subiriam para 25% em junho, segundo mensagem do presidente na rede Truth Social.
Essa decisão revela a mais profunda divisão entre os aliados da Otan desde a criação da aliança, provocando reações duras de líderes europeus e executivos que, até então, evitavam críticas para não perder o apoio americano à Ucrânia.
No domingo (18), um representante do Palácio do Eliseu informou que Macron pedirá à UE que ative o “instrumento anticoerção”, permitido para restringir o acesso ao mercado único da Europa para empresas americanas como retaliação a casos de coerção econômica, incluindo tarifas punitivas.
Essa ferramenta, adotada em 2023 e nunca utilizada, permite que a UE reaja contra pressões econômicas injustas. Macron conversará durante o dia com líderes europeus para essa solicitação. Embaixadores da UE se reunirão em Bruxelas para debater os próximos passos.
Em uma declaração conjunta, os países ameaçados — Dinamarca, Finlândia, França, Alemanha, Reino Unido, Países Baixos, Noruega e Suécia — afirmaram que seu exercício militar na Groenlândia “não representa ameaça para ninguém” e demonstraram solidariedade ao Reino da Dinamarca e ao povo da Groenlândia.
Eles ressaltaram que as ameaças tarifárias comprometem as relações transatlânticas e podem gerar uma espiral negativa. O grupo garantiu unidade e coordenação na resposta, reafirmando a defesa da soberania.
A UE ainda não ratificou acordo comercial firmado no verão passado com os EUA, que manteria tarifas em 15%. Parlamentares europeus vêm retardando a aprovação devido à crise na Groenlândia.
Uma das respostas estudadas inclui a imposição de impostos a €93 bilhões das exportações americanas, segundo fontes ligadas ao assunto. Esse pacote de retaliação foi suspenso em agosto, mas a suspensão vence em 7 de fevereiro, salvo prorrogação da Comissão Europeia.
O vice-chanceler e ministro das finanças da Alemanha, Lars Klingbeil, declarou que “uma linha foi cruzada” e que os países afetados não devem ceder a chantagens, prometendo uma resposta europeia. O ministro da defesa da Dinamarca, Troels Lund Poulsen, também condenou as ameaças, chamando a medida de inaceitável especialmente por atingir países que aumentaram responsabilidade na Otan.
Autoridades da Dinamarca e Finlândia comentaram surpresa e ressaltaram a contradição que a atitude de Trump representa, já que os exercícios militares visam defender a região do Ártico, não ameaçá-la.
O presidente finlandês Alexander Stubb, e os primeiros-ministros da Suécia e Noruega, Ulf Kristersson e Jonas Gahr Støre, alertaram contra qualquer tentativa de chantagem contra a Europa.
O comissário de comércio da UE, Maroš Šefčovič, declarou que a implementação do acordo comercial EUA-UE será difícil à luz das ameaças do presidente americano.
Líderes empresariais alemães também expressaram preocupação. Bertram Kawlath, da associação de fabricantes de máquinas, pediu que Bruxelas analise o uso do mecanismo anticoerção diante das pressões americanas, ressaltando o impacto das tarifas atuais no setor.
Hildegard Müller, do lobby automobilístico alemão, afirmou que o custo adicional das tarifas afetará gravemente a indústria europeia e pediu uma resposta estratégica que evite escaladas prejudiciais.
Em meio a tensões crescentes, a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni, com bom relacionamento com Trump, conversou com ele e o primeiro-ministro holandês Mark Rutte para tentar diminuir conflitos. Meloni considerou a decisão de Trump um erro e ressaltou a importância do diálogo para evitar escaladas.
A Itália não será diretamente afetada pelas tarifas, pois não participa da missão militar na Groenlândia, mas sofrerá impactos pela relação comercial com a Alemanha.
Meloni sugeriu que a Casa Branca pode ter interpretado mal os exercícios na Groenlândia, sem perceber que são uma resposta a possíveis ameaças de potências como Rússia e China, e ressaltou o papel da Otan para organizar a dissuasão.
A Bélgica, apesar de enviar pessoal militar, não foi incluída nas ameaças tarifárias. O ministro das relações exteriores belga, Maxime Prévot, afirmou que a operação na Groenlândia demonstra preocupação coletiva com a segurança do Ártico.
Essa crise na relação transatlântica marca um momento delicado para a UE e os EUA, enquanto se desenrola a disputa pela influência na região do Ártico e a questão das tarifas internacionais.
Créditos: Folha de S.Paulo