Seguro e Ventura vão ao segundo turno nas presidenciais em Portugal
António José Seguro, ex-secretário-geral do Partido Socialista (PS), foi o candidato mais votado nas eleições presidenciais de Portugal realizadas no domingo, 18 de janeiro, com 31,12% dos votos. Ele irá disputar o segundo turno contra André Ventura, do partido Chega, de direita radical, que obteve 23,53%.
Na sequência, está João Cotrim de Figueiredo, eurodeputado da Iniciativa Liberal, com 15,99%, seguido pelo almirante independente Henrique Gouveia e Melo, que coordenou a campanha nacional de vacinação contra a covid-19, e recebeu 12,33%. Luís Marques Mendes, apoiado pelo Partido Social Democrata (PSD), ficou em quinto lugar com 11,30%.
Seguro, que se apresenta como um candidato moderado, fez campanha chamando ao “voto útil” da esquerda. Em seu discurso após a apuração, declarou que a vitória representa um triunfo da democracia e convidou todos os democratas, progressistas e humanistas a apoiarem sua candidatura para derrotar o extremismo e as divisões.
A grande novidade foi a ida de Ventura para o segundo turno. Ele ganhou destaque nos últimos anos com um discurso de direita radical e contra a imigração. Na noite da apuração, Ventura afirmou que o resultado indica que a direita acordou e que está começando uma nova fase da disputa eleitoral.
Fundado em 2019, o Chega aumentou sua votação de 1,3% para mais de 20% em 2025, defendendo o combate à corrupção das elites políticas e o endurecimento das políticas de segurança e imigração, especialmente contra a imigração considerada descontrolada. Nas eleições legislativas de 2025, o Chega conquistou 60 cadeiras, tornando-se a segunda maior força no Parlamento português, atrás da coligação de centro-direita Aliança Democrática (AD), liderada pelo PSD.
Ventura liderou a disputa nos últimos dias de campanha com a promessa de colocar “os portugueses primeiro”, mas terminou atrás de Seguro nas urnas, embora com votação expressiva.
Apesar do desempenho forte da direita radical, analistas da BBC News Brasil consideravam improvável a vitória de Ventura no segundo turno por causa do alto índice de rejeição que ele possui, superior a 60%.
Alguns candidatos derrotados no primeiro turno manifestaram apoio a Seguro para o segundo turno, como António Filipe, Jorge Pinto e Catarina Martins. Esta última alertou para os riscos da radicalização da direita e recomendou votar em Seguro com atenção. Marques Mendes não declarou seu voto, e Gouveia e Melo afirmou que se posicionará posteriormente.
A comunidade brasileira em Portugal acompanhou com apreensão o desenrolar da eleição, que teve 11 candidatos — a disputa mais fragmentada desde 1974. Em vários momentos, houve empate técnico entre cinco candidatos e muita indefinição entre os eleitores.
Ana Paula Costa, presidente da Casa do Brasil em Lisboa, expressou preocupação com o risco de fortalecimento do discurso anti-imigração e aumento da discriminação e xenofobia.
Portugal é um regime semipresidencialista parlamentarista. O presidente é eleito por voto direto, mas o Executivo é liderado pelo primeiro-ministro, que depende de apoio no Parlamento. O presidente tem papel de moderador, podendo vetar leis, dar posse ao primeiro-ministro, dissolver o Parlamento e convocar eleições antecipadas.
As eleições ocorreram em meio a um aumento do custo de vida, com inflação de 2,3% em 2025, e instabilidade política, tendo Portugal realizado três eleições legislativas desde 2022. O atual governo PSD não tem maioria e depende de apoio de partidos à direita radical e centro-esquerda.
O país também passou por endurecimento na política migratória, com mudanças na Lei de Estrangeiros aprovadas pela coligação governista, Iniciativa Liberal e Chega. Essas mudanças restringem vistos de trabalho, eliminam a possibilidade de solicitar residência após ingressar como turista e endurecem regras de reagrupamento familiar.
O cientista político Marco Lisi afirmou que o Chega tentará pressionar por mais endurecimento das políticas migratórias.
A possibilidade de aumento de agressões xenófobas contra brasileiros foi discutida. Ventura não ataca diretamente a comunidade brasileira, maior grupo de imigrantes em Portugal, e afirma apoiar brasileiros que contribuem para a sociedade portuguesa, criticando mais fortemente imigrantes do Sul da Ásia e países muçulmanos.
Há brasileiros entre os apoiadores do Chega, que é popular entre simpatizantes do ex-presidente Jair Bolsonaro, alinhados com pautas conservadoras e de segurança.
A campanha de Ventura incluiu ações controversas, como outdoors com a frase “Isto não é o Bangladesh” dirigidos a imigrantes asiáticos e propagandas negativas contra a comunidade cigana, retiradas por decisão judicial.
Créditos: BBC News Brasil