Política
21:07

Trump ameaça ordem mundial ao tentar anexar Groenlândia

Uma intervenção militar é justificável em ditaduras hostis como Venezuela e Irã, mas é muito diferente quando se ameaça uma nação democrática aliada e membro da principal aliança de segurança dos EUA. É isso que Trump coloca em risco ao exigir a anexação da Groenlândia.

Os interesses militares e econômicos dos EUA na Groenlândia poderiam ser atendidos sem a necessidade de transferir a posse da ilha, já que a Dinamarca está aberta a negociações, algo que poderia ter ocorrido sem o desgaste e a perda de confiança que o atual impasse provocou.

Na Estratégia de Segurança Nacional publicada em novembro de 2025, a Groenlândia não é mencionada. Em carta ao primeiro-ministro da Noruega, Trump expressou que não ter recebido o Nobel da Paz influencia seu desejo de conquistar a ilha, indicando que a tentativa de anexação decorre mais de sua personalidade do que de motivos estratégicos, colocando em risco a ordem mundial.

Essa ordem mundial, vista por Trump como desfavorável, foi fundamental para manter os EUA no topo político e econômico globalmente. O mundo confia no dólar e nos títulos do Tesouro americano como porto seguro, possibilitando que o país se endivide mais que qualquer outra economia. Porém, essa confiança está se desgastando, o dólar perde valor gradativamente e não é mais visto como um refúgio econômico seguro. Anteriormente, crises globais valorizavam o dólar, mas esse padrão mudou.

Nem a OTAN nem a Europa têm capacidade militar para defender a Groenlândia. A ideia de retaliar economicamente os EUA, como vendendo em massa títulos americanos, é enganosa, porque esses títulos estão majoritariamente em mãos privadas. Na verdade, a Europa é mais dependente dos EUA, inclusive em equipamentos militares, e pode não se beneficiar de retaliações econômicas no curto prazo. Contudo, está claro para a Europa e para o mundo que depender dos EUA virou um risco.

Com o tabu quebrado, não há como voltar atrás. Mesmo após Trump deixar o cargo, fica claro que a adesão dos EUA às regras internacionais não é automática e pode ser usada como ferramenta de negociação para ganhar concessões conforme os interesses do governo vigente.

A China, principal beneficiária dessa mudança, não conta com uma rede militar aliada como a OTAN, que parece estar em declínio. Isso já se reflete em parcerias como a do Canadá com a China, que reduziu tarifas mútuas e planeja investimentos mais amplos para se adaptar a essa “nova ordem mundial”. A Europa também reconhece tardiamente os riscos de sua dependência.

Na ânsia de manter os EUA em “primeiro lugar”, Trump acaba promovendo a decadência americana e acelerando a transição para um mundo menos dependente dos Estados Unidos.

Créditos: Folha de S.Paulo

Notícias relacionadas

Política
quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Ler +
Política
quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Ler +
Modo Noturno