Europa avalia respostas à ameaça tarifária dos EUA sobre a Groenlândia
Desde a posse de Donald Trump, tensões entre Europa e Estados Unidos são frequentes, mas a indignação atual é maior após a ameaça do presidente americano de aplicar uma tarifa de 10% a oito países europeus que enviaram tropas à Groenlândia.
O presidente francês Emmanuel Macron declarou que “nenhuma intimidação ou ameaça nos influenciará”, referindo-se à Ucrânia, Groenlândia e outras situações. Diversos líderes europeus, como o primeiro-ministro sueco Ulf Kristersson e a presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen, expressaram indignação com a tentativa de pressão econômica americana sobre território soberano de um membro da Otan, buscando uma resposta coordenada.
A União Europeia e seus 27 membros, junto ao Reino Unido, Noruega, Islândia e Ucrânia, buscam um consenso sobre a resposta à ameaça tarifária, que inicialmente dividiu opiniões.
A primeira-ministra italiana Giorgia Meloni conversou com Trump, sugerindo que ele interpretou erroneamente o envio simbólico de tropas europeias à Groenlândia, uma ação realizada a pedido da Dinamarca para atender a um pedido de maior presença militar europeia no Ártico. Meloni classificou as tarifas como “um erro” e destacou a esperança de que a diplomacia evite maiores conflitos, embora duvide que a crise termine rapidamente.
Uma possível retaliação comercial europeia seria o fim do Acordo de Turnberry, que permite tarifa de 15% na exportação europeia aos EUA sem contramedidas. Caso a ameaça americana seja executada, as tarifas poderiam subir para 25% e a UE poderia impor tarifas retaliatórias em até 93 bilhões de euros em produtos dos EUA.
Apesar do interesse dos EUA na Groenlândia, a população local e a Dinamarca não estão dispostos a negociar a ilha.
A UE hesita em retaliação devido à necessidade de manter apoio dos EUA na guerra da Ucrânia, apesar dos cortes na ajuda americana. Armas e inteligência americanas ainda são essenciais para a defesa europeia.
Outra resposta possível é o Instrumento Anticoercivo (ACI), uma ferramenta que permite à UE reagir a pressões econômicas com várias contramedidas. França e alguns parlamentares defendem seu uso contra as ações americanas. Contudo, há receio entre os Estados-membros, pois o ACI exige tempo para análise e votação, e pode desencadear retaliações em setores estratégicos como tecnologia e propriedade intelectual.
Na coalizão europeia, a Polônia se encontra dividida entre seu primeiro-ministro centrista, que condena a ação americana, e o presidente nacionalista que minimiza o conflito. O país não enviou tropas à Groenlândia. Hungria também mostrou alinhamento com a visão de Trump.
O Reino Unido, fora da UE, adotou posição própria sobre tarifas. O primeiro-ministro Keir Starmer afirmou que aplicar tarifas a aliados que contribuem para a segurança coletiva da Otan é equivocado, e busca negociar tarifas independentemente da UE. Mesmo aliados tradicionais dos EUA, líderes britânicos reconhecem a gravidade da ameaça tarifária.
O incidente revela fragilidades na liderança americana no Ocidente e crescente desconfiança europeia em relação aos EUA. Enquanto o Canadá reforça laços estratégicos com a China, oito países que enviaram tropas à Groenlândia reiteraram compromisso com sua soberania, apontando para um distanciamento silencioso da Europa em relação aos Estados Unidos.
Créditos: Estadão