Internacional
09:10

Trump completa 1 ano no 2º mandato com diplomacia de confronto e unilateralismo

Ao completar um ano do seu segundo mandato nesta terça-feira (20.jan.2026), Donald Trump, do Partido Republicano, consolida a política externa dos Estados Unidos como unilateral, baseada em pressão sobre aliados, enfrentamento de rivais e enfraquecimento de mecanismos multilaterais.

Desde seu retorno à Casa Branca, o governo norte-americano passou a tratar alianças como instrumentos negociáveis, não como compromissos permanentes, o que mudou a posição dos EUA no cenário internacional e abalou estruturas tradicionais da diplomacia global.

No início do mandato, Trump deixou claro que não buscava apenas restaurar as alianças existentes no governo de Joe Biden, do Partido Democrata. Ele optou por reordenar as relações internacionais segundo seus próprios critérios.

O pesquisador de relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB), Vitor dos Santos Bueno, explicou ao Poder360 que o segundo mandato de Trump demonstra intenção de reorganizar a posição dos EUA no mundo de forma mais intensa e sem exceções.

O governo passou a exigir ganhos diretos dos aliados. Segundo Bueno, Trump não só se distanciou dos parceiros tradicionais, mas tentou explorá-los unilateralmente. O presidente pressionou países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) a elevarem seus gastos militares e ameaçou parceiros históricos com discursos rígidos, incluindo referências a possíveis ações contra o México e o controle da Groenlândia, território da Dinamarca.

No âmbito econômico, Trump instituiu o chamado “Dia da Libertação”, que simbolizou a imposição de tarifas globais. Ele aplicou estas tarifas a vizinhos e parceiros de longa data, esperando fechar novos acordos comerciais em até 90 dias, o que não ocorreu imediatamente.

A União Europeia foi diretamente afetada pelas medidas. O governo dos EUA marginalizou o bloco nos debates sobre a guerra da Ucrânia e inflamou o discurso sobre imigração na Europa. Para Bueno, um dos aliados mais importantes, a Europa foi publicamente desvalorizada, estando sua parceria com os EUA no ponto mais fraco dos últimos 80 anos.

Com Japão e Canadá, Trump manteve cooperação limitada e sempre fundamentada numa negociação dura, tratando comércio e segurança como moedas de troca e substituindo a confiança estratégica pelo pragmatismo imediato.

Trump também voltou seu foco para a América Latina, vista como uma região estratégica de baixo custo político e militar nesta fase do mandato. Segundo Bueno, embora tenha importância, a América Latina não é central na liderança global dos EUA. Contudo, Washington age na região devido à facilidade de impor seus interesses.

As políticas migratórias foram reforçadas, com deportações integradas à política externa. Trump firmou acordos com El Salvador, Uganda e Ruanda para o recebimento de imigrantes deportados, dando visibilidade temporária a esses países.

No Brasil, a relação entrou em uma zona de tensão, com tarifas impostas e envolvimento em disputas sobre comércio, terras raras e regulação das grandes empresas de tecnologia. Conforme Bueno, Brasil está no meio das disputas entre as duas potências nesses temas.

No México, Trump manteve postura rígida, vinculando imigração, segurança e comércio, pressionando por tarifas e controle migratório.

Na Venezuela, o governo dos EUA adotou atitudes agressivas que resultaram no afastamento do presidente Nicolás Maduro, do PSUV. Para Bueno, o sistema internacional viu as ações de Trump, como o sequestro de Maduro e medidas unilaterais, como equivocadas, mas não conseguiu reagir eficazmente.

Com Cuba, a política permaneceu rígida e confrontativa, alinhada à rejeição de governos considerados hostis. Em 11 de janeiro, Trump afirmou que Cuba não receberá mais petróleo nem recursos financeiros da Venezuela.

O pesquisador alerta que 2026 deverá acirrar a disputa na América Latina, com maior investimento político dos EUA para apoiar governos alinhados a sua visão.

Trump colocou China e Rússia no centro de sua política externa, tratando a China como principal rival econômico e tecnológico, e ampliando disputas nos setores de semicondutores, energia e infraestrutura.

Segundo Bueno, a relação entre EUA, China e Rússia torna o mundo menos equilibrado, com os EUA promovendo a ideia de “zonas de influência”, onde grandes potências controlam regiões, enfraquecendo países menores e provocando instabilidade regional.

Em relação à Rússia, Trump assumiu postura ambígua, ora criticando Moscou pela guerra na Ucrânia, ora buscando aproximação com Vladimir Putin. Bueno descreve o contexto internacional mais como um cenário de impotência que polarização, pois ações equivocadas de Moscou não são efetivamente punidas.

Trump frequentemente usa o discurso de contenção à China e Rússia para justificar sua atuação em outras regiões, especialmente na América Latina, mas essa dinâmica reflete principalmente ação unilateral dos EUA, e não reciprocidade.

No primeiro ano do mandato, Trump esvaziou organizações multilaterais, preferindo negociações bilaterais para impor interesses mais facilmente. Ele encerrou a USAid, que promovia programas internacionais ligados a direitos humanos, meio ambiente e minorias.

Também usou peso financeiro e político para paralisar instituições como a Organização Mundial do Comércio, congelando seu sistema decisório.

Além disso, evitou fóruns globais como o G20 na África do Sul, teve participação discreta na COP30 em Belém e no G7, inclusive deixando uma reunião antes do encerramento.

Na área ambiental, manteve distância de compromissos globais e saiu do Acordo de Paris, mas outros países seguiram negociando entre si.

Conforme Bueno, 2025 serviu para Trump testar os limites da reação internacional ao pressionar aliados, rivais e países periféricos. Em 2026, começou o ano atacando a Venezuela e confrontando o Irã, enquanto o país entra no ciclo das eleições de meio mandato, que podem impor freios institucionais segundo a composição do Congresso.

Na América Latina, a tendência é maior intervenção política, disputa por recursos naturais e tentativa de isolar a China. Na Europa, eleições e avanço de forças nacionalistas podem enfraquecer a coesão do bloco, facilitando pressões dos EUA sobre países isolados. Na Ásia, permanece o foco da disputa com Pequim, com atenção a Taiwan e fortalecimento da cooperação militar com aliados regionais.

Para os anos finais do mandato, entre 2027 e 2028, o pesquisador prevê uma política externa ainda mais dura e imprevisível, marcada por unilateralismo aprofundado e por dificuldades do sistema internacional em lidar com uma potência instável.

Créditos: Poder360

Modo Noturno