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Assassinato de ex-delegado revela força e expansão do PCC em São Paulo

O assassinato do ex-delegado Ruy Ferraz Fontes, ocorrido na segunda-feira (15/09) em uma movimentada via pública de Praia Grande (SP), evidencia a força do crime organizado em um momento de diversificação das atividades do Primeiro Comando da Capital (PCC), segundo especialistas em Segurança Pública.

Pioneiro no combate ao crime organizado, Fontes foi morto em uma aparente emboscada no litoral paulista, onde atuava como secretário municipal de Administração.

Um vídeo do episódio mostra o carro em alta velocidade com Fontes, fazendo uma curva e colidindo com um ônibus. O veículo capota e outro carro aparece com homens fortemente armados que abrem fogo contra o automóvel onde estava o ex-delegado.

Segundo Leonardo Carvalho, pesquisador sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o assassinato foi uma ação planejada e de alta complexidade tática, demonstrando que Fontes foi um alvo específico, operado com logística e planejamento oriundos de treinamento especializado.

Ferraz teve papel essencial na identificação da estrutura do PCC, sendo um dos primeiros delegados a mapear o organograma da facção e responsável pela transferência de diversas lideranças para presídios federais. Ele já havia sido jurado de morte anos antes, conforme ressalta Carvalho.

Embora a participação direta do PCC no crime não tenha sido confirmada oficialmente, há indícios de ligação da organização, segundo Lincoln Gakiya, promotor do Ministério Público e integrante do Gaeco.

As investigações apontam duas linhas motivacionais: vingança pelo combate de Fontes ao crime organizado e retaliação por seu trabalho na Prefeitura de Praia Grande.

Especialistas apontam que essa execução altamente planejada demonstra a força do crime organizado, que atualmente amplia suas ações do tráfico de drogas à extração ilegal de ouro na Amazônia e controle de empresas de tecnologia.

Além disso, execuções de grande visibilidade, como a do ex-colaborador e delator do PCC Vinícius Gritzbach em novembro de 2024 no Aeroporto de Guarulhos, têm se tornado mais frequentes em São Paulo.

O professor Rafael Alcadipani, da EAESP-FGV, destaca que essas ações têm caráter espetacular, buscando chamar atenção, e parecem indicar um retorno a esse tipo de operação.

Ele aponta que o crime organizado está fora de controle, agindo com liberdade em diferentes pontos estratégicos do estado, como litoral e aeroportos, gerando pânico.

Para as forças de Segurança Pública, o foco permanece na repressão policial, com operações como o Escudo e o Verão, mas ainda falta articulação entre diferentes órgãos, conforme Carvalho.

Alcadipani ressalta que a resposta do Estado precisa ser precisa e técnica, evitando ações generalizadas que não alteram a atuação do crime organizado.

Ele também alerta sobre o impacto político do assassinato para o governador Tarcísio de Freitas, principal candidato nas eleições presidenciais de 2026, por enfraquecer a percepção da política de segurança pública estadual.

O secretário de Segurança Pública de São Paulo, Guilherme Derrite, informou que dois suspeitos já foram identificados, sem revelar nomes, e que a polícia dará uma pronta resposta.

Alcadipani ainda criticou o vazamento precoce de informações nas investigações, destacando a importância do sigilo para o sucesso das apurações.

Ruy Ferraz Fontes, de 63 anos, formado e pós-graduado em Direito, foi delegado desde 1988, atuando quinze anos em delegacia especializada em roubos a bancos.

Reconhecido como um dos maiores especialistas no Brasil sobre o PCC e pioneiro no combate à facção, ele liderou ações importantes, entre elas a investigação do PCC após ataques em 2006 que resultaram em mais de 500 civis e 50 agentes mortos.

Sua equipe indiciou líderes da facção, levando ao isolamento em presídios de segurança máxima. Pela atuação, recebeu a medalha Tiradentes em 2007.

As medidas contra o PCC fizeram dele alvo da facção. Em 2019, investigações revelaram que o líder máximo do PCC, Marcola, ordenou a morte de Fontes e outros policiais como resposta à transferência de líderes para presídios federais.

Fontes ocupou cargos diversos, incluindo delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo entre 2019 e 2022, e comandou investigações importantes como o ataque em Suzano em 2019.

Era também professor de Investigação Policial na Academia da Polícia Civil, com mais de dez anos de atuação docente.

Aposentado da polícia, assumiu em janeiro de 2023 a secretaria de Administração da Prefeitura de Praia Grande.

Créditos: BBC

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