Análise aponta incompetência e traição na fraca resistência da Venezuela aos EUA
O êxito da ação militar dos Estados Unidos na Venezuela pode ser atribuído a três fatores principais: a colaboração de traidores dentro do regime, a superioridade militar norte-americana e a incompetência dos oficiais venezuelanos encarregados da defesa do país, conforme análise enviada ao UOL pelo professor Sandro Teixeira, especialista em Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército Brasileiro (Eceme).
A avaliação do professor baseou-se em imagens disponíveis, relatos de contatos venezuelanos e seu conhecimento anterior da estrutura e do funcionamento da Força Armada Nacional Bolivariana da Venezuela, com a qual o Brasil teve cooperação até o fim do governo Michel Temer, em 2018.
Teixeira aponta que havia três grupos informais disputando influência na liderança do regime. Um desses grupos teria negociado a captura de Nicolás Maduro, liderado pela então vice-presidente Delcy Rodríguez e seu irmão Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional desde 2021.
A hipótese de traição pelos irmãos Rodríguez é reforçada por declarações públicas do presidente americano Donald Trump e do secretário de Estado Marco Rubio, que admitiram manter conversações com Delcy, até ter seu reconhecimento pela Suprema Corte venezuelana como sucessora legal de Maduro, fato que não encontrou objeções imediatas nos EUA.
Esse reconhecimento ocorreu em detrimento das pretensões políticas de María Corina Machado, vencedora do Nobel da Paz, e de Edmundo González Urrutia, que se auto intitulou presidente legítimo a partir de eleições contestadas em 2024.
Outro grupo de poder, liderado pelo ministro da Defesa Vladimir Padrino López, teria resistido à pressão da CIA, enquanto um terceiro, sob comando de Diosdado Cabello, teria sido completamente refratário e inacessível aos americanos.
O professor argumenta que regimes autoritários são compostos por diversas facções em constante disputa por influência junto ao líder, e que Delcy e Jorge Rodríguez provavelmente se sentiam menos favorecidos em relação a Padrino e Cabello.
Ele sugere que a morte de 32 militares cubanos durante a operação está relacionada a esses grupos; eles atuariam como uma guarda pretoriana de Maduro, mais alinhada com Padrino e Cabello do que com Delcy.
Mesmo com a colaboração obtida, os americanos aplicaram um ataque intenso que destruiu cerca de 90% da defesa antiaérea venezuelana, incluindo radares, sistemas de mísseis e canhões adquiridos da China e Rússia, visando neutralizar qualquer resistência possível.
Foram usados mísseis Tomahawk de alta precisão, bombas Paveway guidanceada por GPS, além de bombardeiros B-1 e B-2, caças F-35, F-22 e F-18, aeronaves de guerra eletrônica EA-18G Growler e diferentes drones. Entre os helicópteros empregados, estavam modelos Viper, Black Hawk MH-60 e MH Chinook, inclusive para o transporte de Maduro.
Outro ponto salientado por Teixeira é o enfraquecimento da Força Armada Nacional Bolivariana, que conta com muitos oficiais incompetentes promovidos rapidamente por critérios políticos e não técnicos, comprometendo a capacidade operacional da instituição.
Ele observa que oficiais venezuelanos que estiveram no Brasil como tenentes retornaram rapidamente ao país natal ocupando postos de generais, configurando um quadro de “políticos fardados”.
Além disso, regimes autoritários tendem a experimentar uma degradação natural das Forças Armadas, pois os militares priorizam a repressão interna à dissidência em vez de focar na defesa contra ameaças externas.
Essa desorganização e falta de preparo explicam também a desmobilização da cúpula militar venezuelana no momento da ação, mesmo diante de ameaças claras dos EUA.
O recesso de final de ano permitiu que oficiais experientes estivessem de folga, com substitutos inexperientes em cargos críticos, fato possivelmente considerado pelos EUA ao planejar a data da operação.
Por fim, o professor Teixeira sugere que pode ter havido uma ordem para não reagir, justificando a escassa resistência e o número relativamente baixo de vítimas no confronto.
*João Paulo Charleaux é jornalista e autor da série “As Regras da Guerra”, publicada pela Folha de S.Paulo, e do livro “Ser Estrangeiro – Migração, Asilo e Refúgio ao Longo da História”. Trabalhou entre 2002 e 2009 no Comitê Internacional da Cruz Vermelha, foi editor no jornal O Estado de S. Paulo e correspondente em Paris do Nexo Jornal.
Nota: O conteúdo da análise é de responsabilidade do autor e não do UOL.
Créditos: UOL