Análise: Por que o regime do Irã ainda não caiu apesar das crises
Há uma ilusão comum entre os observadores do Irã de 2026: acreditar que crises profundas levam a um desfecho rápido. Os protestos atuais reforçam essa expectativa, com justificativa.
Entretanto, a verdade desconfortável é que regimes autoritários não caem simplesmente porque deveriam. Eles desabam quando condições políticas específicas se alinham — algo que ainda não parece ocorrer em Teerã.
O que torna o momento atual excepcional não é só a intensidade da revolta, mas a sobreposição de três colapsos distintos: econômico, ambiental e de legitimidade.
Dados recentes mostram que um iraniano médio precisaria trabalhar cem anos para comprar um apartamento. Além disso, várias cidades enfrentam escassez severa de água. O PIB está estagnado, enquanto a inflação corrói salários e o valor da moeda desaba.
Não se trata apenas de turbulência; há uma decomposição sistêmica. Ainda assim, o regime permanece.
É fundamental considerar que os movimentos de rua são expressivos, mas talvez insuficientes sozinhos.
A Revolução de 1979 não venceu apenas pela coragem popular, mas porque Ruhollah Khomeini ofereceu um projeto alternativo articulado e uma liderança capaz de unir diferentes facções — algo inexistente hoje.
A oposição moderna no Irã é fragmentada e isolada. Reza Pahlavi tem apenas o nome, mas não uma organização estruturada. Reformistas tradicionais envelheceram ou foram neutralizados.
A Organização dos Mujahidin do Povo Iraniano (MEK), grupo armado exilado que luta contra o regime desde os anos 1980, é organizada, porém rejeitada por uma ampla parcela da população, que os vê como sectários e desconectados da realidade nacional.
Revoluções não surgem espontaneamente a partir da indignação; requerem construção política, algo que nenhuma força oposicionista iraniana conseguiu realizar até agora.
Sem isso, protestos podem incomodar o regime e chocar o mundo, mas dificilmente o derrubam.
Existem fissuras: o Parlamento rejeitou o orçamento recente, o presidente admitiu estar “travado” e porta-vozes reconhecem a legitimidade das reclamações populares. Porém, nada disso terá peso enquanto a Guarda Revolucionária permanecer unida.
Regimes como o do Irã não caem apenas pela perda de popularidade ou colapso econômico, mas quando os militares armados recusam disparar a favor do governo ou de um ideal. Essa recusa ainda não ocorreu, e enquanto não surgir, a repressão continuará.
Alguns acreditam que bombardeios externos derrubariam o regime, mas a história indica o contrário. Intervenções militares de potências estrangeiras costumam fortalecer regimes autoritários sob pressão.
Elas transformam lutas por dignidade em defesa da soberania, forçando a população a escolher entre opressores internos e invasores externos.
Responder honestamente sobre a queda do regime exige abandonar certezas confortáveis.
Conforme especialistas como Nate Swanson, do Atlantic Council, pelo menos três elementos precisam se combinar para o fim do regime teocrático no Irã.
Até agora, apenas o primeiro elemento está claro, podendo inclusive ser sufocado pela violência estatal.
É fato que o Irã se tornou inabitável para a maioria, que o regime perdeu qualquer narrativa mobilizadora além do medo, e que o tempo desfavorece a República Islâmica.
Mas entre a lenta erosão e o colapso abrupto existe um abismo de contingências imprevisíveis.
Regimes moribundos podem agonizar por décadas. A União Soviética pareceu eterna até desaparecer. A Alemanha Oriental pareceu inabalável até a queda do Muro de Berlim. Nenhum colapso foi automático.
Todos dependeram de situações específicas que não podem ser reproduzidas à vontade. O Irã está à beira do abismo, mas isso não significa uma queda imediata.
Quem espera o fim rápido do regime deve entender que essa diferença pode demorar anos, custar milhares de vidas e não garantir que o que vier depois será melhor.
Créditos: CNN Brasil