Bolsonarismo busca reação cuidadosa à prisão para evitar linha dura de Moraes
No sábado, o deputado Zé Trovão (PL-SC) publicou um vídeo convocando caminhoneiros, o setor do agronegócio e motoboys a irem às ruas contra a prisão de Jair Bolsonaro (PL), mas foi orientado a apagar a mensagem.
Logo após, um aviso no grupo de WhatsApp da oposição recomendou não convocar manifestações públicas. Essa orientação foi dada pelo líder da oposição, deputado Zucco (PL-RS), que pediu para evitar postagens nas redes sociais que pudessem ser interpretadas como chamadas para mobilização da militância.
Uma vigília prevista na Polícia Federal foi cancelada. Deputados chegaram a sugerir dirigirem-se ao local onde Bolsonaro está detido, porém essa ideia foi desautorizada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
O grupo bolsonarista deseja evitar despertar a reação rigorosa do ministro Alexandre de Moraes. O convite feito por Flávio para a vigília no condomínio do ex-presidente foi utilizado como argumento para justificar a prisão preventiva de Bolsonaro.
Há temor na oposição de que parlamentares possam ser incluídos em inquéritos do Supremo Tribunal Federal em razão de publicações como a de Zé Trovão. No sábado, aumentou a preocupação de que Flávio pudesse ser investigado após um pedido feito pelo PSOL.
Pessoas próximas ao senador consideram exagerada essa possibilidade e ressaltam que ele já responde a outro inquérito aberto em março de 2019, no início do governo Bolsonaro, relacionado às fake news.
Apesar disso, o receio do impacto das ações de Moraes permanece e há uma busca por equilíbrio. A oposição tem consciência do peso do vídeo da tornozeleira eletrônica danificada e seu impacto no eleitorado que não é raiz bolsonarista. O deputado Cabo Gilberto (PL-PB) destaca que o pedido de prisão do ex-presidente foi feito antes de o STF saber sobre a avaria no equipamento.
Os bolsonaristas tentam passar a impressão de que Moraes agiu de forma contundente, mas sem parecer agressivos. O discurso é cuidadosamente calibrado para não colocar deputados e senadores na mira de investigações.
Está prevista para hoje, às 14h, uma reunião convocada pelo presidente do PL, Valdemar Costa Neto, na sede do partido em Brasília, que contará com a presença de deputados e senadores para definir a estratégia de resposta.
Paralelamente, o porta-voz de Bolsonaro está sendo escolhido. O líder do PL na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (RJ), informou que as opções são Flávio Bolsonaro ou Michelle Bolsonaro.
Os dois têm permissões distintas para visitas ao ex-presidente: Michelle pode permanecer até duas horas, enquanto Flávio tem autorização para meia hora.
Carlos Bolsonaro recusou o papel de porta-voz neste momento de crise, e parlamentares do PL comunicaram que ele delegou essa função a Flávio.
Sóstenes também afirmou que vai pedir a votação da anistia nesta semana e que a reunião de segunda-feira decidirá se o partido vai recorrer à obstrução parlamentar caso o pedido não seja atendido.
Entretanto, a obstrução tem sido vista como ineficaz por alguns parlamentares do PL, que apontam o número reduzido de bolsonaristas na Câmara — cerca de cem —, insuficiente para paralisar os trabalhos.
Além disso, ocupar as Mesas Diretoras da Câmara e do Senado está fora de cogitação, visto que uma tentativa anterior em agosto contou com a tolerância da presidência da Câmara, de Hugo Motta (Republicanos-PB). Uma nova ocupação provavelmente resultaria em sanções rigorosas, já que o episódio anterior comprometeu sua autoridade.
Não há planos para organizar atos públicos no momento. O foco será a mobilização nas redes sociais, com manifestações somente após uma nova avaliação do cenário.
Os protestos pró-Bolsonaro estão reunindo cada vez menos pessoas. A vigília realizada no sábado, dia da prisão, ocupou um espaço equivalente ao tamanho de um campo de futebol, com público suficiente para preencher apenas a grande área.
A divulgação do vídeo da tornozeleira eletrônica danificada colocou a oposição em posição defensiva. Lindbergh Farias, líder do PT na Câmara, afirmou que a repercussão da imagem fez os pronunciamentos em defesa de Bolsonaro cessarem.
Ele citou, como exemplos, os governadores Tarcísio de Freitas (Republicanos), Ronaldo Caiado (União), além do presidente do PSD, Gilberto Kassab, e do deputado Arthur Lira (PP-AL), que se calaram após o vídeo viralizar.
Lindbergh também avaliou que já não há ambiente favorável para a aprovação da anistia, afirmando que o campo político do bolsonarismo está se desmoralizando.
Além disso, ele não enxerga possibilidade para que Bolsonaro cumpra prisão domiciliar, destacando que o ex-presidente está detido preventivamente em uma investigação diferente daquela que o condenou no STF por tentativa de golpe.
Assim, Bolsonaro conseguiu fragilizar o argumento dos seus advogados para o regime domiciliar.
Créditos: UOL