Política
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Bolsonaristas minimizam gesto de Trump a Lula e questionam impacto político

Parlamentares e apoiadores de Jair Bolsonaro (PL) minimizam a fala do ex-presidente Donald Trump sobre o presidente Lula (PT) durante o discurso na Assembleia-Geral das Nações Unidas em 23 de setembro. Eles afirmam que o gesto de Trump não representa uma ação concreta e duvidam que haja reversão das tarifas americanas ou melhora na crise bilateral após eventual diálogo entre os dois líderes.

Nas horas seguintes ao discurso de Trump, parte dos bolsonaristas mostrou-se incerta sobre os próximos passos, considerando a imprevisibilidade do ex-presidente americano. De modo reservado, alguns reconheceram a dificuldade em prever se o episódio causaria prejuízos ao grupo político bolsonarista.

Um aliado avaliou que pode haver prejuízo e teme que Lula abra uma porta de diálogo até então mantida apenas pelo deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e pelo empresário Paulo Figueiredo.

De modo geral, os bolsonaristas entendem que a crise pode até se intensificar após um contato entre os líderes, ainda que este seja feito de forma mais controlada por telefone.

Eles ressaltam que existem mais divergências do que pontos em comum entre Lula e Trump, e que isso ficaria claro num diálogo, já que nos discursos na ONU ambos trocaram críticas. Entre as diferenças, citam a posição pró-Palestina de Lula e pró-Israel de Trump, a relação do brasileiro com a gestão do antecessor Joe Biden, o Judiciário brasileiro, entre outros temas.

Paulo Figueiredo comentou: “[Lula] será cobrado sobre o projeto de anistia. E aí? Cheque. Lula termina o dia em uma posição política muito pior do que começou”.

Também consideraram que a postura elogiosa de Trump em relação a Lula pode ser uma estratégia calculada para pressionar o presidente brasileiro. Ao convocá-lo publicamente para uma reunião, Trump impediria que Lula não comparecesse.

O governo brasileiro tem enfrentado dificuldades para abrir diálogo com a administração Trump, que impôs duras tarifas a produtos do Brasil após intensa articulação do deputado federal Eduardo Bolsonaro e do empresário Paulo Figueiredo. O gesto de Trump no discurso da ONU é o primeiro e maior sinal desde o início da crise, em julho.

Depois do discurso de Trump, Eduardo Bolsonaro destacou em suas redes sociais as críticas feitas ao governo brasileiro por suposta perseguição judicial e censura de direitos de cidadãos americanos.

Ele escreveu: “Tudo isso é um prenúncio do que estará na mesa de um possível encontro entre Trump e Lula que, se confirmado, deve ocorrer no Salão Oval. Lula não terá escolha: terá de ir. Será no momento e nos termos escolhidos por Trump, com o Itamaraty sem participação na coordenação”.

No entanto, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, indicou que o encontro deve ser um telefonema, o que os bolsonaristas interpretaram como uma evasiva.

Filipe Barros (PL-PR), presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, afirmou: “Lula teve a chance de estar frente a frente com Trump, mas já busca desculpas para evitar. O presidente está sendo procurado”.

Eles acreditam que Trump pode tratar Lula da mesma forma que tratou o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, no Salão Oval, episódio que Lula descreveu como humilhante.

Essa visão também é compartilhada, em parte, por membros do governo petista, que, apesar de considerarem o gesto de Trump uma vitória para Lula, receiam que o americano use o diálogo para pressionar ou humilhar o presidente brasileiro.

Os dois líderes tiveram uma breve interação na manhã de 23 de setembro, pouco antes do discurso de Trump na Assembleia-Geral da ONU, em Nova York. Trump sugeriu uma conversa na semana seguinte, convite que Lula aceitou. O encontro foi anunciado por Trump ao final de seu discurso, quando declarou ter gostado de Lula e mencionado uma “excelente química” entre eles.

Créditos: Folha de S.Paulo

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