Brasil é central no acordo comercial entre UE e Mercosul, aponta estudo
A assinatura do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, realizada em 17 de janeiro de 2026, aproximará cadeias produtivas estratégicas entre os dois continentes, revelando também uma relação econômica assimétrica em que o Brasil ocupa posição de destaque.
Segundo dados da Comissão Europeia, o Brasil representa mais de 82% das importações europeias originadas no Mercosul e cerca de 79% das exportações do bloco sul-americano para a União Europeia.
Nesse cenário, Argentina, Uruguai e Paraguai tendem a ter papel secundário na dinâmica do acordo. Apesar de integrarem o Mercosul, o volume comercial menor desses países faz com que a UE conduza grande parte da negociação focada na relação com o Brasil.
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) indicam que as importações brasileiras da UE são concentradas em poucos países. Em 2025, três países da União Europeia responderam por aproximadamente 57% dos US$ 50,3 bilhões importados pelo Brasil.
A composição dessas importações revela dependência de bens tecnológicos de alto valor, essenciais para serviços públicos e indústria.
José Pimenta, diretor de Comércio Internacional e sócio da BMJ Consultoria, destacou que a eliminação das tarifas deve reduzir custos de produção no Brasil, ao baratear insumos importados da UE, pois atualmente a tributação eleva significativamente os preços finais para os produtores brasileiros.
Para a União Europeia, o Brasil é importante fornecedor de insumos básicos e matérias-primas estratégicas. Em 2025, dos US$ 49,81 bilhões exportados pelo Brasil à UE, 73% foram destinados a cinco países.
O Canadá de Holandês destaca-se como hub logístico da UE, especialmente pelo porto de Roterdã, principal entrada de mercadorias para o continente. Espanha e Alemanha veem o acordo como parte de sua estratégia para fortalecer a economia europeia frente às tensões geopolíticas com China e Rússia, conforme análise de Leonardo Munhoz, pesquisador do Centro de Bioeconomia da Fundação Getulio Vargas (FGV).
Essa estratégia reflete-se na pauta exportadora brasileira para a UE, focada em produtos primários e insumos industriais, essenciais para cadeias produtivas e suprimentos energéticos e alimentares da Europa.
Embora negociado como blocos, o acordo apresenta assimetria econômica, com o Brasil concentrando a maior parte do peso nas trocas comerciais, enquanto Argentina, Uruguai e Paraguai atuam em escala menor.
Especialistas consultados pelo g1 afirmam que essa diferença impacta tanto no volume comercial quanto na influência política durante as negociações.
A Argentina é o segundo maior parceiro sul-americano da UE, mas suas exportações em 2024 foram quase cinco vezes inferiores às brasileiras, totalizando US$ 8,5 bilhões.
Regiane Bressan, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), comentou que essa assimetria se agrava pelo clima político desfavorável à coordenação regional, marcado por dificuldades de diálogo entre os governos brasileiro e argentino, principalmente devido ao distanciamento entre os presidentes Lula e Javier Milei.
O distanciamento político argentino enfraqueceu o papel do país nas fases finais das negociações.
Por sua vez, o Uruguai apresenta crescimento gradual e maior estabilidade institucional, com exportações da UE para o país aumentando de US$ 418 milhões para US$ 2,1 bilhões em mais de 20 anos.
No entanto, segundo Bressan, o Uruguai enfrenta limitações técnicas para atender às exigências ambientais da UE, em contraste com o Brasil, que possui um arcabouço legal mais robusto, como o Código Florestal.
No Paraguai, além dessas dificuldades, o peso econômico na relação com a UE é menor. Em 2024, as exportações da UE para o Paraguai somaram US$ 994 milhões, enquanto as importações ficaram em US$ 416 milhões, mantendo-se estagnadas desde 2018.
Apesar do comércio restrito, o Paraguai adquiriu relevância ao assumir a presidência temporária do Mercosul em 2026, liderando a etapa final de ratificação do acordo.
Créditos: g1