Economia
15:09

Brasil identifica oportunidades na indústria com acordo UE-Mercosul

O governo brasileiro detectou potencial para expandir seu mercado em vários setores industriais, que vão desde aviação até siderurgia, baseado em um mapeamento sobre oportunidades de exportação resultantes do acordo comercial entre União Europeia e Mercosul.

O tratado, ainda pendente de aprovação pelo Parlamento Europeu e pelos legislativos dos países do Mercosul, foi assinado em 17 de janeiro, em Assunção, Paraguai.

Segundo levantamento do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) para a Folha, em 2024 o Brasil exportou para a UE veículos aéreos, como helicópteros e aviões, no valor de US$ 662,6 milhões. Tal valor corresponde a menos de 2% dos US$ 36 bilhões que a Europa importou desse segmento.

O estudo cruzou a pauta exportadora brasileira considerando produtos onde o Brasil possui competitividade global e sua participação nas importações europeias varia até 10%, incluindo itens muito demandados pela UE no mercado mundial.

No setor de equipamentos, o Brasil vendeu US$ 1,2 bilhão em máquinas, aparelhos, caldeiras, reatores nucleares e instrumentos mecânicos em 2024 para a Europa. O total de importação europeia nesse grupo somou US$ 736 bilhões.

De acordo com a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), a médio prazo o acordo pode aumentar em 25% a 30% as exportações do setor eletroeletrônico para a UE, além de possibilitar diversificação de fornecedores para matérias-primas industriais.

Para o governo, esses dados reforçam a meta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que o Brasil ultrapasse o papel de exportador de commodities para focar em bens industriais de maior valor agregado. Lula afirmou isso após encontro com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, no Rio de Janeiro em 16 de janeiro.

Tatiana Prazeres, secretária de Comércio Exterior do Mdic, destaca que o acordo não só facilita as exportações brasileiras à UE, mas também proporciona acesso a instrumentos competitivos e tecnologia, que devem aumentar a produtividade da indústria nacional.

Ela também afirma que as exportações do Brasil para o resto do mundo poderão crescer em função do tratado, que oferece um ambiente com maior segurança jurídica e estabilidade para as empresas.

Na siderurgia, produtos como tubos e perfis ocos de ferro ou aço têm potencial para aumento de mercado. No setor químico e farmacêutico, há oportunidades para hidrogênio, gases raros, elementos não metálicos e medicamentos em doses terapêuticas ou profiláticas.

André Passos Cordeiro, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), comenta que o acordo facilita o comércio ao reconhecer mutualmente certificações, superando barreiras não tarifárias históricas da UE a esses setores.

Ele também acredita que, geopolíticamente, o tratado facilita o comércio diante das tarifas impostas pelos Estados Unidos, com mecanismos de defesa comercial válidos para Brasil e Europa, como salvaguardas e antidumping.

Por outro lado, Cordeiro destaca desafios, entre eles o alto custo de matérias-primas químicas, que coloca Brasil e Europa em desvantagem frente à China e EUA, limitando as trocas a produtos mais caros.

O acordo também abre mercados para outras áreas, como madeira e móveis. A Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário (Abimóvel) avalia o pacto como estratégico para reposicionar a atuação brasileira na Europa.

Sob pressões tarifárias americanas, a participação dos EUA nas exportações brasileiras de móveis caiu para 23,5% em 2025, ante cerca de 30% em anos anteriores.

Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior, afirma que a Europa é hoje a maior expectativa do setor, e estudos indicam potencial crescimento de 20% nas exportações brasileiras de móveis para a UE já no primeiro ano do acordo.

Em 2024, o Brasil exportou US$ 57,95 milhões em móveis para a União Europeia, um valor pequeno comparado aos US$ 32 bilhões importados pela região no mesmo ano. Países como França, Alemanha e Espanha já compram móveis brasileiros, e o tratado possibilita atingir novos mercados no Leste Europeu.

Barral aponta a lei antidesmatamento europeia como um desafio burocrático, exigindo adaptação das empresas da cadeia, incluindo madeira e celulose.

Outros produtos com potencial de destaque nas exportações brasileiras para a UE são couros preparados de bovinos ou equídeos, óleo de soja e preparações alimentícias como suplementos, caramelos e confeitos. Mesmo setores fora do levantamento do Mdic, como confecções de moda praia, são considerados promissores.

Tatiana Prazeres reconhece que a concretização dessas oportunidades depende de muitos fatores. Após longa negociação, ela defende que é hora de concentrar esforços para transformar possibilidades em negócios por meio de diálogo estreito com o setor privado e promoção comercial entre empresas dos dois blocos.

Créditos: Folha de S.Paulo

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