Castro reclama que Lula não ligou após operação contra o Comando Vermelho no Rio
Após uma semana marcada por divergências que terminou em um “armistício” com reunião oficial para anunciar colaboração com o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, o governador Cláudio Castro (PL) do Rio de Janeiro tem uma última queixa em relação ao governo federal.
Segundo interlocutores de Castro, o governador ainda não recebeu nenhuma ligação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a respeito da operação contra o Comando Vermelho (CV) que resultou em 121 mortes.
Castro não procurou Lula após a operação, mas o presidente determinou que Lewandowski e o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, fossem ao Rio para oferecer apoio. Auxiliares do governador afirmam que ele tentou ser recebido por Lula várias vezes nos últimos seis meses para tratar de outros temas, sem sucesso na obtenção de um espaço na agenda presidencial.
No início da operação, na terça-feira, o governador declarou que o governo federal teria negado o fornecimento de veículos blindados para o estado, o que foi oficialmente contestado pelo Planalto. O pedido de empréstimo dos veículos da Marinha fora feito em janeiro, em outro contexto, e foi negado pela Advocacia-Geral da União (AGU) alegando que tal cessão só poderia ocorrer mediante um decreto de Garantia da Lei e da Ordem (GLO).
“Já entendemos que há uma política de não ceder [blindados militares]. Disseram que é preciso uma GLO. Depois alegaram que poderiam emprestar, mas voltaram atrás porque o servidor que opera o blindado é federal e deveria haver uma GLO, enquanto o presidente já declarou ser contra a GLO”, afirmou Castro em coletiva durante a megaoperação.
O governador enfatizou: “Não vamos ficar lamentando, vamos trabalhar.”
Depois, Castro contatou a ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, buscando amenizar as declarações sobre o governo federal.
Por telefone, negou ter a intenção de criticar Lula, explicando apenas os motivos pelos quais as autoridades federais não participaram da operação nos complexos do Alemão e da Penha, na zona norte do Rio.
Horas depois, após uma reunião de emergência no Palácio do Planalto convocada pelo presidente em exercício, Geraldo Alckmin, a ministra Gleisi criticou o fato de que o governo do Rio não comunicou formalmente a operação ao governo federal.
“Eles deveriam ter solicitado que o governo federal participasse do planejamento desde o início, avaliasse os riscos e contribuísse com a inteligência. Mas isso não ocorreu. O governo federal vai servir só para fornecer armas?”, provocou a ministra.
Na sexta-feira (31), após um encontro conjunto entre as equipes de Lewandowski e Castro, foram feitas promessas de colaboração integrada, com anúncio da criação de um escritório conjunto de combate ao crime. Este será integrado pelo secretário de Segurança Pública do Rio, Victor Santos, e pelo secretário nacional de Segurança Pública, Mario Sarrubbo.
Além disso, foi anunciado um aumento de 50 policiais na Polícia Rodoviária Federal e reforço na inteligência do governo federal no Rio.
Auxiliares de Lula, informados da reclamação do governador, demonstraram irritação, afirmando: “Mandamos toda a cúpula da segurança pública para o Rio, o que mais ele queria?”
Quanto a uma eventual ligação de Lula para Castro, não houve e não há previsão. O presidente também não se manifestou publicamente sobre a operação além de publicações nas redes sociais, onde destacou que “matar 120 pessoas não resolve o combate ao crime, pois outros 120 surgem para ocupar o lugar”.
Lula declarou ainda que “o combate ao crime exige mais inteligência e menos sangue”. Internamente, a Secretaria de Comunicação Social determinou que o presidente mantenha distância do assunto.
Créditos: O Globo