Centrão e direita articulam derrota do governo Lula na MP do IOF
A derrota do governo Lula (PT) na Medida Provisória 1303, que tratava da tributação do IOF e novas fontes de arrecadação, teve responsáveis definidos e múltiplos articuladores. Sob o argumento de evitar aumentos de impostos, partidos do Centrão – liderados por PP, União Brasil e PSD – se uniram para deixar a MP caducar, configurando uma reação planejada contra o Palácio do Planalto.
Esse movimento, coordenado nos bastidores por Gilberto Kassab (PSD) e Tarcísio de Freitas (Republicanos), foi interpretado pelo governo como uma ofensiva para fragilizar Lula às vésperas das eleições de 2026.
A Medida Provisória previa arrecadação extra de até 35 bilhões de reais por meio da taxação de operações financeiras, apostas e aplicações isentas como LCI e LCA. Esses recursos dariam suporte ao equilíbrio orçamentário e ao financiamento de programas sociais. No entanto, o texto foi rejeitado por 251 votos contra 193 após uma manobra articulada dos líderes do Centrão que usaram a pauta econômica como um teste de força.
PP e União Brasil lideraram a ofensiva pela retirada da pauta, contando com o apoio do Republicanos e parte significativa do PSD. No Progressistas, 40 deputados votaram pela retirada; no União Brasil, 46; no Republicanos, 29; e no PSD, 18, totalizando votos suficientes para inviabilizar a votação.
Nos corredores do Congresso, o presidente do PSD, Gilberto Kassab, fez diversas ligações a deputados da legenda pedindo votos contrários à MP. Parlamentares relataram que Kassab agiu em sintonia com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que incentivou os congressistas a não concederem “fôlego fiscal” ao governo Lula. O Planalto identifica nessa atuação uma dobradinha: Kassab mira manter sua influência no Congresso e Tarcísio tem ambições eleitorais para 2026.
A derrubada da MP teve ainda um tom de retaliação. Após a derrota na PEC da Blindagem, líderes do PP, União Brasil e Republicanos aguardaram o momento para devolver o golpe.
Os articuladores acreditavam que o Planalto havia se distanciado das siglas do centro e adotado um discurso de autossuficiência diante da recuperação da popularidade de Lula. Pesquisa Quaest divulgada antes da votação mostrava empate técnico na aprovação presidencial, com 48% de aprovação e 49% de desaprovação.
A votação também foi vista como mensagem dos partidos que romperam com o governo, mas que ainda mantêm ministros no governo. O União Brasil afastou o ministro do Turismo, Celso Sabino, e iniciou processo de expulsão após ele decidir permanecer no cargo. O PP adotou medida semelhante contra André Fufuca, ministro do Esporte, que também optou por continuar.
Ambos contrariaram a orientação das siglas que oficializaram ruptura com o governo e anunciaram federação para 2026. A posição de PP e União na votação serve para reforçar a separação e evidenciar autonomia em relação ao Executivo.
Após a derrota, Lula afirmou que quem perdeu não foi o governo, mas o Brasil, acusando os deputados de defenderem os mais ricos ao impedir a arrecadação extra prevista pela MP. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, declarou que o Centrão atuou para proteger o mercado financeiro.
Para o governo, a queda da MP do IOF marca o início de um novo ciclo de conflito com o Congresso. A aliança dos partidos de centro e centro-direita demonstra o esforço para limitar a margem de ação do governo num contexto de disputa acirrada.
Esse movimento indica que toda proposta que implique aumento de receitas enfrentará resistência. No curto prazo, Lula buscará alternativas legais para compensar a perda de arrecadação. No longo prazo, a derrota revela que as principais forças do Centrão pretendem manter pressão sobre o presidente até as eleições de 2026.
Créditos: CartaCapital