Cessar-fogo em Gaza: desafios do acordo de paz entre Israel e Hamas
No segundo dia de cessar-fogo entre Israel e o grupo terrorista Hamas, cerca de meio milhão de palestinos retornaram à Cidade de Gaza, encontrando um cenário devastado após dois anos de conflito.
Embora as duas partes tenham confirmado no sábado (11) a intenção de cumprir o acordo, a relação instável entre elas levanta dúvidas sobre a implementação efetiva do pacto. Questões importantes ficaram pendentes e devem ser discutidas em uma segunda fase de negociações.
Hossam Badran, membro do escritório político do Hamas, declarou que as próximas conversas serão complexas e difíceis, já que não há consenso sobre vários pontos críticos. Qualquer impasse pode desfazer o acordo e levar Israel a uma retomada da ofensiva contra o Hamas, comprometendo a reconstrução de Gaza.
Badran afirmou à AFP que o Hamas está preparado para reagir caso Israel retome hostilidades. Uma cúpula, com a presença do presidente americano Donald Trump, será realizada no Egito na segunda-feira (13) para monitorar a execução do tratado de paz, porém o Hamas não deverá participar da cerimônia.
A primeira fase do acordo prevê a libertação dos reféns restantes em troca da soltura de centenas de palestinos presos por Israel, com prazo até segunda-feira, data da reunião de Trump com 20 líderes no Egito.
O exército israelense já recuou suas tropas para dentro do território palestino, retirando-se da Cidade de Gaza e de Khan Younis, e autorizou a ampliação da entrega de ajuda humanitária pelas Nações Unidas a partir de domingo.
Entretanto, o desarmamento do Hamas permanece controverso. O grupo se recusa a abrir mão do direito à resistência armada enquanto durar a ocupação israelense nos territórios palestinos, enquanto Israel considera o desarmamento fundamental para encerrar a campanha militar.
Há indícios de que o Hamas poderia concordar com a “desativação” das armas mais ofensivas, entregando-as a um comitê conjunto palestino-egípcio. Contudo, Badran reiterou que o desarmamento está “fora de questão e não é negociável”. Trump disse que essa questão será tratada futuramente.
Em negociações anteriores, o Hamas condicionou a libertação dos últimos reféns à saída total das tropas israelenses de Gaza, confiando que a retirada completa ocorreria após a entrega dos sequestrados.
O plano de Trump ainda propõe o envio de uma força de segurança internacional liderada por países árabes para atuar em Gaza junto com policiais palestinos treinados pelo Egito e Jordânia. Israel manteria uma zona de segurança estreita dentro do território e controle sobre o corredor Filadélfia, fronteira de Gaza com o Egito.
Israel exige que Gaza fique livre da influência do Hamas, mas rejeita a transferência do governo à Autoridade Palestina, temendo que isso leve à criação de um Estado palestino. O plano americano sugere que um órgão internacional coordene uma administração palestina e a reconstrução de Gaza, ideia rejeitada pelo Hamas.
O grupo palestino, que governa Gaza desde 2007, aceita apenas uma administração liderada por tecnocratas palestinos e não aceita deixar a região definitivamente.
Caso as negociações falhem, Gaza pode ficar em limbo, com tropas israelenses ainda no território e o Hamas ativo. A reconstrução significativa dependeria da conclusão do acordo, sob risco de manter a população palestina em condições precárias.
O primeiro-ministro israelense Netanyahu afirmou que manterá o controle da segurança a longo prazo, cogitando a ocupação do território e a realocação voluntária da população para países vizinhos.
O conflito começou em 7 de outubro de 2023, quando o Hamas invadiu Israel, causando cerca de 1.200 mortos e 251 reféns. Em Gaza, mais de 60 mil pessoas morreram em dois anos de ataques, segundo dados do grupo palestino.
Créditos: g1