Como o maior terremoto do RN revolucionou a sismologia brasileira

Há 40 anos, o terremoto de magnitude 5.1 que atingiu João Câmara mudou a sismologia no Brasil, marcando um antes e depois na área. Na época, os registros eram feitos de forma analógica em papel fumê, com apenas três professores envolvidos e sem uma rede nacional de monitoramento sísmico.
A sequência de tremores durou mais de uma década, ultrapassando 50 mil eventos, e atraiu pesquisadores renomados do mundo todo para a cidade potiguar. Os estudos conduzidos na Falha de Samambaia revelaram uma estrutura de aproximadamente 38 quilômetros, permitindo a identificação de áreas antes desconhecidas.
Atualmente, o Laboratório Sismológico da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) opera 55 estações distribuídas pelo país, utilizando algoritmos que processam automaticamente os dados sísmicos, enviando informações em tempo real à Defesa Civil.
Por exemplo, em 19 de fevereiro deste ano, um tremor de magnitude 1.7 em João Câmara foi registrado e rapidamente processado pelo laboratório, gerando boletins acessíveis a órgãos como a Defesa Civil e o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
Na década de 1980, o cenário era precário: equipamentos antigos, ausência de estações móveis, e falta de monitoramento contínuo. O grupo da UFRN já estudava a atividade sísmica local, mas a sequência iniciada em 1986 intensificou os estudos, consolidando a sismologia brasileira com mais investimentos e capacitação.
Antes desse evento, terremotos no Brasil eram pouco estudados e raramente causavam impacto em áreas urbanas. A presença constante de tremores chamou a atenção nacional e internacional, com cientistas do Japão, Estados Unidos, Inglaterra, Grécia, Venezuela, além de pesquisadores de universidades brasileiras, participando das análises.
O então presidente José Sarney determinou o envio de equipes técnicas a João Câmara, demonstrando a importância do fenômeno inédito naquela magnitude no país.
Os pesquisadores acompanharam uma sequência sísmica que durou mais de dez anos, registrando uma atividade intensa e transformadora. A Falha de Samambaia, área responsável pelos tremores, foi mapeada com detalhes, ampliando o conhecimento científico na área.
O legado da sequência sísmica inclui a estruturação da sismologia na UFRN, que hoje conta com um prédio próprio, equipamentos modernos e técnicos especializados. Os registros que antes eram manuais e demorados agora são imediatos e automáticos, graças a uma rede de estações e algoritmos que agilizam o processamento e a comunicação dos dados.
Além de monitorar, o laboratório desenvolve ações educativas, palestras em escolas e orientações para gestores públicos e Defesas Civis sobre riscos geológicos e protocolos de segurança. Tal preparação e comunicação com a população destacam-se como os maiores legados deixados pelo terremoto de João Câmara.
A previsão de terremotos ainda é uma limitação tecnológica atual, tornando o monitoramento contínuo a ferramenta principal para proteção. O conhecimento adquirido a partir dali só é possível devido ao monitoramento constante e à experiência acumulada nesses 40 anos.
Créditos: g1