Conselho da Paz de Trump questiona atuação da ONU em mediação de conflitos
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, confirmou em 20 de janeiro que o Conselho da Paz criado por seu governo pode futuramente substituir a Organização das Nações Unidas (ONU) na mediação de conflitos internacionais.
Trump afirmou em entrevista coletiva na Casa Branca que a ONU falhou em ajudá-lo a resolver guerras desde o início de seu segundo mandato. “Eu gostaria que não precisássemos de um Conselho da Paz”, disse, ressaltando que, apesar das guerras que mediou, a ONU nunca o auxiliou.
Segundo ele, o novo conselho surge após repetidas frustrações com a atuação da ONU, que deveria ter ajudado a resolver os conflitos em que esteve envolvido, mas ele nunca recorreu ao órgão multilaterial.
O Conselho da Paz foi inicialmente criado para supervisionar a reconstrução da Faixa de Gaza, em uma segunda fase do plano dos EUA para o território, após mais de dois anos de guerra entre Israel e o Hamas. Entretanto, o estatuto do conselho prevê um mandato amplo para atuação em diversas crises globais.
De acordo com a Casa Branca, Trump presidirá o Conselho da Paz, com poder decisório final sobre propostas e resoluções. As decisões entrarão em vigor imediatamente e poderão ser vetadas posteriormente pelo presidente do conselho, posição que Trump poderá ocupar vitaliciamente ou até renunciar, inclusive após concluir seu mandato presidencial. Após sua saída, o futuro presidente dos EUA designará o representante do país no conselho.
Convidados a participar do conselho, países como Hungria, Argentina, Belarus, Vietnã, Marrocos, Emirados Árabes Unidos, Paraguai, Egito, Israel e Turquia já aceitaram. Rússia, China, Brasil, Canadá, Alemanha, Austrália e Índia também receberam convites, porém ainda analisam a proposta.
Fontes da NBC News indicam que o estatuto prevê assentos permanentes mediante pagamento de US$ 1 bilhão, enquanto os demais países podem participar por três anos inicialmente. A participação com pagamento é voluntária, segundo um alto funcionário da Casa Branca.
França e Noruega anunciaram que não participarão do conselho, citando questionamentos sobre os princípios da ONU e seu Conselho de Segurança. Em retaliação, Trump ameaçou impor tarifas de 200% sobre vinhos e champanhes franceses.
Durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, o ministro das Relações Exteriores da Bélgica, Maxime Prévot, afirmou que o Conselho da Paz tenta substituir o sistema da ONU por um órgão sob controle pessoal. O chanceler da Áustria, Christian Stocker, chamou o conselho de “estrutura paralela” à ONU e destacou que já existe uma organização para estes fins.
O lançamento oficial do Conselho da Paz ocorreu no evento em Davos, com Trump declarando que o conselho atuará em cooperação com a ONU e que “todos querem ser parte” da iniciativa. Líderes de países que aderiram participaram da cerimônia.
A analista do International Crisis Group Maya Ungar expressou que o conselho concentra poder excessivo nos EUA, ao contrário do Conselho de Segurança da ONU, onde grandes potências discutem cooperação e limites.
O doutor em Relações Internacionais Igor Lucena avaliou que o conselho nasce com fragilidades políticas e é visto como uma “ONU personalizada”, liderada diretamente por Trump, comprometendo sua aceitação global.
Lucena apontou o isolamento diplomático enfrentado por Trump em fóruns multilaterais e o que classificou como contradições entre o discurso e as ações da Casa Branca, incluindo ameaças tarifárias a aliados como Reino Unido, França e União Europeia.
Embora considere que a proposta inicial para reconstrução na Faixa de Gaza tinha fundamento, Lucena afirmou que o conselho perdeu legitimidade com a ampliação do escopo e a postura confrontacional do presidente americano. Ele concluiu que a iniciativa está destinada ao fracasso.
Créditos: Gazeta do Povo