Internacional
09:08

Conselho de Paz de Trump para Gaza gera controvérsias e dúvidas internacionais

O novo órgão internacional de transição para Gaza, inicialmente apoiado pela Organização das Nações Unidas (ONU) e incluído no plano de paz liderado pelo presidente americano Donald Trump, tem gerado crescente preocupação conforme novos detalhes são revelados.

O conselho executivo do órgão conta com membros como o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, conhecido por seu apoio à invasão do Iraque em 2003, mas não aos palestinos. Além disso, há uma taxa de adesão permanente no valor de US$ 1 bilhão (aproximadamente R$ 5,7 bilhões). A própria ONU levanta questionamentos sobre o papel do novo organismo.

Líderes mundiais foram convidados a integrar o Conselho da Paz, incluindo o primeiro-ministro da Nova Zelândia, Christopher Luxon, que declarou que vai analisar o convite. O Ministério das Relações Exteriores da Tailândia também está avaliando a proposta, enquanto o ex-presidente Lula ainda não comentou oficialmente o convite.

Entre os que aceitaram publicamente estão o secretário-geral do Partido Comunista do Vietnã, Tô Lâm, e o presidente de Belarus, Alexander Lukashenko, que se disse “pronto para participar”. O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, aceitou integrar o conselho, mas anunciou que não pagará a taxa para se tornar membro permanente.

Fontes americanas informaram que a participação no Conselho de Paz de Trump não exige pagamento, mas membros permanentes devem custear a taxa de US$ 1 bilhão, valor que serviria para ajudar na reconstrução de Gaza. Trump deve presidir vitaliciamente o conselho, mesmo após deixar a presidência dos EUA, e o órgão poderá ser ampliado para tratar outros conflitos, conforme documentos obtidos pela Reuters.

Na carta de apresentação, Trump descreve o conselho como uma “nova e ousada abordagem para resolver conflitos globais”, o que tem sido visto como uma possível ameaça ao Conselho de Segurança da ONU, atualmente responsável pela mediação de paz e sanções internacionais.

O jornal israelense Haaretz destaca que o estatuto do novo conselho enfatiza a necessidade de um órgão internacional de paz mais ágil e eficaz, capaz de se distanciar de instituições que falharam reiteradamente. A Casa Branca afirmou alinhamento com a Resolução 2803 do Conselho de Segurança da ONU, porém fontes próximas ao presidente francês Emmanuel Macron manifestaram preocupações sobre o respeito à estrutura e princípios da ONU.

Khaled Elgindy, do Quincy Institute, apontou que o governo Trump pretende expandir o alcance do conselho e inclusive substituir o sistema atual da ONU, indicando que Gaza seria apenas o começo dessa iniciativa.

O governo Trump vem reduzindo os recursos destinados à ONU e já usou vetos para impedir o Conselho de Segurança de tomar medidas para encerrar o conflito em Gaza. Em janeiro de 2026, Trump assinou um memorando retirando os EUA de 31 entidades da ONU que considera desfavoráveis aos interesses americanos, como a Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança do Clima e o Fundo da ONU para a Democracia.

Além do Conselho de Paz, foram anunciados dois conselhos executivos subordinados dedicados a garantir governança e serviços que promovam a paz e estabilidade em Gaza. O “Conselho Executivo Fundador”, presidido por Trump, terá sete membros, incluindo Tony Blair, que é visto como uma figura controversa devido ao seu papel na Guerra do Iraque.

Os integrantes terão responsabilidades específicas para a estabilização de Gaza, mas não há representantes palestinos nesses conselhos. O Conselho Executivo inclui um israelense, o bilionário imobiliário Yakir Gabay, que foi nascido em Israel e vive atualmente no Chipre. Também participam políticos do Catar e da Turquia, países críticos à conduta de Israel na Faixa de Gaza.

Políticos palestinos esperavam maior representação. Mustafa Barghouti afirmou que parece ser um conselho americano com alguns elementos internacionais e expressou preocupações quanto ao papel pouco claro do grupo administrativo palestino aprovado em negociações de paz no Cairo. Ele também apontou dúvidas sobre a disposição de Israel em abrir a passagem de Rafah, essencial para a reconstrução.

Do lado israelense, o governo afirmou ter sido excluído das negociações sobre os conselhos, com a decisão contrária à política do país. O líder da oposição israelense Yair Lapid chamou o anúncio de “fracasso diplomático para Israel”. Itamar Ben-Gvir, ministro da Segurança Nacional, declarou que Gaza não precisa de comitês administrativos, mas sim ser “limpa de terroristas do Hamas”.

Segundo a ONU, cerca de 80% dos edifícios em Gaza foram destruídos ou danificados, gerando aproximadamente 60 milhões de toneladas de escombros. As famílias deslocadas enfrentam frio, falta de abrigo adequado e escassez de alimentos. Organizações humanitárias afirmam que houve avanços, embora Israel mantenha restrições à assistência para impedir o uso dos recursos pelo Hamas.

Israel afirma facilitar ajuda humanitária e atribui à ONU a responsabilidade pela distribuição dos suprimentos existentes em Gaza.

Um desafio importante é manter o cessar-fogo, que tem mostrado sinais de desgaste. O Hamas condiciona seu desarmamento a um acordo maior que inclua a criação de um Estado palestino, enquanto Israel só aceitará retirar suas tropas caso o Hamas se desarme.

Fica a expectativa sobre a capacidade do Conselho de Paz de Trump para promover mudanças efetivas e avançar em direção a uma paz duradoura.

Reportagem adicional de Sanne Peck, da BBC News Mundo.

Créditos: BBC

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