Crise do metanol revela falhas e fraudes no setor de bebidas no Brasil
A crise do metanol evidencia falhas na fiscalização e práticas fraudulentas no mercado de bebidas alcoólicas no Brasil. Até o momento, foram reportados 195 casos de intoxicação. O problema é agravado pela venda clandestina e pelo descarte irregular de garrafas usadas.
Especialistas destacam a importância de uma fiscalização rigorosa e de parcerias com distribuidoras homologadas para combater essas irregularidades. Estima-se que o mercado ilegal de bebidas movimenta cerca de R$ 62 bilhões por ano, o que reforça a urgência de medidas efetivas.
Em anúncios na internet, garrafas com rótulos e tampas originais são vendidas por preços muito baixos, como R$ 1, apresentadas como “garrafas para artesanato”. No entanto, o descarte inadequado de recipientes que continham vodca, uísque e gim, bebidas relacionadas à onda de intoxicações por metanol, fomenta a produção clandestina e falsificação.
A fiscalização enfrenta problemas, ainda mais porque existem distribuidores paralelos, que não têm ligação com grandes fabricantes e muitas vezes não emitem nota fiscal. Um comerciante de bar em São Paulo admitiu ter fechado negócio com um vendedor de rua. Nesse mesmo bar, uma cliente ficou cega após ingerir uma caipirinha contaminada pelo metanol.
O Globo visitou vários bares e restaurantes em São Paulo, o epicentro da crise, que até agora registrou duas mortes. Donos de estabelecimentos relatam abordagens frequentes por representantes comerciais que, às vezes, são ligados a grandes distribuidoras, porém outras vezes oferecem preços suspeitos.
Um gerente na Vila Olímpia contou que esses representantes visitam os locais com catálogos, mas após alertas, já não retornam. Outro dono de bar relatou que diariamente surge uma nova distribuidora com descontos significativos ou até pedidos para não emitir nota fiscal.
O advogado David Fernando Rodrigues alerta que preços muito abaixo do mercado indicam produtos roubados, contrabandeados ou adulterados, práticas criminosas recorrentes nesse setor, que já convive com isso há décadas.
Segundo estimativas, o mercado ilegal de bebidas alcoólicas movimenta R$ 62 bilhões anuais no país.
O professor Fernando Aith, da USP, aponta que, embora grandes empresas sofram fiscalização rigorosa, a atuação é dispersa fora desse âmbito. Ele destaca que a prevenção é pouco valorizada, cometendo-se falhas que só se tornam visíveis após incidentes.
Na crise atual, pode haver falha grave de alguma indústria registrada ou origem ilícita em fábricas clandestinas que usam garrafas descartadas, evidenciando a necessidade de vigilância ativa, especialmente local.
A Prefeitura de São Paulo informou que a Vigilância Sanitária municipal realiza inspeções baseadas no risco, verificando procedência, notas fiscais, lacres, rótulos e registros oficiais.
A Secretaria Nacional do Consumidor esclareceu que o Ministério da Agricultura e o Sistema Nacional de Vigilância Sanitária regulam o setor, enquanto a Polícia Civil fiscaliza e investiga crimes, exceto quando a competência é federal.
Proprietários de bares consultados afirmam que distribuidoras homologadas são a principal garantia de procedência das bebidas alcoólicas. Essas empresas atuam oficialmente com fabricantes internacionais como Diageo, Pernod Ricard e Brown Forman.
No entanto, as fabricantes não divulgam publicamente critérios ou listas detalhadas dessas distribuidoras homologadas, sendo a Campari uma exceção.
A Associação Brasileira de Bebidas declarou que combate o mercado ilegal e orienta sobre regras regulatórias, aumentando treinamentos recentes para identificar bebidas falsificadas e incentivar a legalidade.
Edson Bregolato, CEO da GRF Distribuição, empresa homologada que fornece marcas reconhecidas, explicou que a homologação exige auditoria, sistemas automáticos e estabilidade financeira, sendo a distribuidora homologada uma extensão da indústria para alcance do mercado.
Outro problema é a oferta de garrafas usadas para reutilização, prática arriscada porque garrafas de destilados são exclusivas para cada marca e não devem ser reutilizadas, pois convidam à falsificação.
Lucien Belmonte, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Vidro, destaca a ausência de protocolos claros para descarte desses recipientes, que em alguns locais conta com cooperativas de reciclagem e em outros depende da coleta seletiva municipal.
Nas redes sociais, garrafas são vendidas por valores muito baixos, sendo que criminosos podem preenchê-las com líquidos adulterados e tóxicos, como metanol, e reintroduzi-las no mercado, enganando consumidores.
Gabriel Pinheiro, diretor da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes de São Paulo, informa que estão fortalecendo protocolos para que bares e restaurantes verifiquem sinais de uso ou irregularidades nas embalagens, já que marcas reconhecidas mantêm rigorosos controles de qualidade.
Enquanto o setor intensifica cuidados, consumidores também estão mais atentos. Em São Paulo, após o início da crise, muitos escolheram optar por cerveja ou drinques prontos em latinhas ao frequentar bares, evitando bebidas destiladas que despertam desconfiança.
Créditos: O Globo