Economia
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Depoimento de Daniel Vorcaro revela crise no Banco Master e ligações políticas

Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, revelou em depoimento à Polícia Federal (PF) em dezembro que a instituição enfrentou uma grave crise de liquidez. Ele admitiu que o modelo de negócios do banco era totalmente baseado no Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que cobre parte das perdas de investidores quando há problemas em instituições financeiras.

Vorcaro afirmou que o banco não se preocupava com o capital social da empresa que gerou carteiras de crédito suspeitas, vendidas por R$ 12,2 bilhões ao Banco de Brasília (BRB). A operação está sendo investigada, e o Banco Central (BC) bloqueou a venda ao BRB, decretando a liquidação do Master em novembro, após a Operação Compliance Zero da PF.

Segundo ele, o plano de negócios do Master era 100% dependente do FGC, o que era conforme as regras vigentes. Entretanto, mudanças regulatórias no fundo pressionaram a captação de recursos, causando a crise de liquidez. Vorcaro não tinha conhecimento de alertas do FGC ao BC sobre problemas no banco.

O banco vendia certificados de depósito bancário (CDBs) com rendimentos muito acima do mercado, garantidos pelo FGC. Grande parte dos investimentos do banco estava aplicada em ativos ilíquidos, como carteiras de crédito e precatórios, reduzindo a capacidade de gerar caixa rapidamente para pagar os investidores.

No depoimento, Vorcaro disse acreditar que o Master não verificou adequadamente o capital da Tirreno, empresa que vendeu as carteiras de crédito suspeitas ao BRB por R$ 12,2 bilhões. Apesar de a instituição ter responsabilidade formal pela documentação incompleta, a cessão dessas carteiras foi cancelada pela operação regulatória.

Vorcaro revelou ainda que o BRB não desembolsou recursos para comprar uma carteira avaliada em R$ 6 bilhões, sendo este um registro contábil em uma conta reserva, sem saída efetiva de dinheiro do banco.

Sobre conversas com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, Vorcaro confirmou encontros e disse que o governador teria recebido referências positivas suas durante as negociações com o BRB, que visavam abafar uma fiscalização do BC. Ibaneis negou ter tratado do banco em encontros sociais.

O BRB ainda não divulgou seu balanço do terceiro trimestre de 2025, esperando concluir as investigações e calcular o valor correto dos ativos recebidos do Master. O BC determinou uma provisão de R$ 2,6 bilhões para cobrir riscos dessas carteiras.

Além disso, o deputado distrital Fábio Félix (PSOL-DF) solicitou à Procuradoria-Geral da República abertura de investigação contra Ibaneis e bloqueio de seus bens para assegurar ressarcimento de possíveis danos públicos.

Vorcaro também citou ter feito “fortes amigos” em Brasília e negou ter pedido intervenção política para beneficiar a operação do BRB, ressaltando que, caso tivesse, a venda não teria sido negada e ele não estaria com restrições legais.

Até o momento, o FGC já pagou R$ 26 bilhões a 521 mil credores do Master que tinham investimentos cobertos, representando 67,3% da base elegível. Com o Master, o total pago supera R$ 40,6 bilhões.

Créditos: O Globo

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