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Desencanto com Boric pode levar chilenos a extremos nas eleições de 2025

Gabriel Boric, eleito presidente do Chile em 2021 aos 39 anos, ex-líder estudantil e o mais jovem chefe de Estado do país, representava uma nova esquerda progressista, que criticava enfaticamente as tendências autoritárias dos governos da Venezuela e da Nicarágua. Contudo, já no final do seu mandato e impedido legalmente de buscar a reeleição, Boric não corresponde à imagem de político inovador: sua desaprovação atinge 60% da população chilena, e ele se tornou uma figura apagada politicamente.

A população que o elegeu em meio a forte insatisfação com os partidos tradicionais agora demonstra vontade de mudar. Nas eleições presidenciais do primeiro turno, realizadas em 16 de novembro de 2025, os principais candidatos são todos renovados ou desvinculados dos partidos que governaram após a ditadura de Augusto Pinochet.

De acordo com pesquisas feitas antes da suspensão do levantamento duas semanas antes da votação, a comunista Jeannette Jara, de 51 anos e ex-ministra no governo Boric, lidera a coalizão de esquerda. Seus principais rivais são representantes da direita, com destaque para José Kast, ex-deputado de 59 anos que fundou em 2019 o Partido Republicano, alinhado à extrema direita e com nostalgia da época de Pinochet. Espera-se que no segundo turno os votos da direita fragmentada se unam em torno de Kast.

Boric enfrentou dificuldades desde o início do mandato ao tentar aprovar uma nova Constituição em plebiscito. O texto da constituinte de esquerda foi rejeitado pelo público devido à radicalidade e suspeitas sobre os delegados. A proposta de revisão da direita também foi recusada por ser ainda mais rígida que a vigente da era Pinochet, o que deixou prevalecendo a antiga Constituição. Com uma minoria no Congresso, Boric não conseguiu implementar suas promessas profundas de mudanças sociais e econômicas.

Sua impopularidade está associada principalmente à insatisfação com a segurança pública e a economia. Embora o PIB cresça e a inflação esteja controlada, o desemprego permanece alto, cerca de 9%, motivando protestos constantes de sindicatos. A criminalidade é a principal preocupação: apesar do Chile ser relativamente seguro para padrões latino-americanos, as taxas de homicídio triplicaram na última década e crime organizado estrangeiro intensificou atividades como tráfico de drogas, sequestros e extorsões.

A direita atribui a piora na segurança ao intenso fluxo migratório, especialmente de venezuelanos que fogem do regime de Nicolás Maduro. Atualmente, há cerca de 337 mil estrangeiros indocumentados no país. Esse cenário favorece candidatos como Kast e Johannes Kaiser, este último inspirado pelo argentino Javier Milei e representante do libertarianismo antiestablishment. Nas pesquisas, Jara lidera com cerca de 30% das intenções, enquanto Kast e Kaiser estão tecnicamente empatados. Logo atrás vem Evelyn Matthei, centro-direitista e a única representante das siglas tradicionais.

Embora Jara esteja à frente no primeiro turno, estudos indicam que, no segundo turno marcado para 14 de dezembro, ela perderia para seus adversários. Um fator relevante para esta eleição é o retorno do voto obrigatório, que deve reduzir a alta abstenção dos últimos anos.

Membro do Partido Comunista desde a juventude, Jara foi ministra do Trabalho no governo Boric e propõe medidas como renda mínima, subsídios para empresas e a modernização policial, além de construir cinco prisões e envolver as Forças Armadas na proteção das fronteiras. Ela ressaltou que governar requer experiência, numa crítica implícita a Kast.

Kast, católico praticante e figura controversa exagerada como o ex-presidente Donald Trump, fundou o Partido Republicano com uma agenda conservadora contra aborto e críticas à comunidade LGBTQ+. Seu discurso político foca os imigrantes, prometendo prisão para quem ingressar irregularmente no Chile, expulsão de todos os indocumentados e construção de valas e muros na fronteira.

Segundo o diretor Rodrigo Espinoza da Escola de Administração Pública da Universidade Diego Portales, o fracasso do processo constitucional e o não atendimento das expectativas fizeram eleitores antes otimistas mudarem suas prioridades. Ao escolher extremos na disputa eleitoral, os chilenos buscam saída para o impasse político atual.

Créditos: Veja Abril

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