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EUA retiram acusação de Maduro liderar Cartel de los Soles e descrevem grupo como sistema de clientelismo

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos alterou a acusação contra o ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro (PSUV, esquerda), removendo a alegação de que ele comandava a suposta organização de tráfico de drogas chamada “Cartel de los Soles”. A nova versão da acusação foi divulgada no mesmo dia da operação, em 3 de janeiro de 2026, que levou à captura do venezuelano.

Com essa mudança, não se atribui mais a Maduro a liderança de uma organização estruturada, já que o documento não caracteriza mais o grupo como uma instituição hierárquica e coesa, mas sim como um sistema difuso de clientelismo.

Essa revisão ocorre após anos de questionamentos sobre a real existência do cartel. Críticos alegam que o termo seria utilizado para designar autoridades militares e civis corruptas conectadas ao narcotráfico.

O documento mais recente descreve o “Cartel de los Soles” como uma referência a um “sistema de patronagem” e uma “cultura de corrupção” na Venezuela. Segundo o Departamento de Justiça, os lucros do narcotráfico beneficiariam oficiais civis, militares e de inteligência corrompidos, que atuariam em um sistema de patronagem liderado por figuras de topo, identificado como Cartel de los Soles devido à insígnia solar presente nos uniformes de oficiais militares venezuelanos de alta patente.

Apesar de retirar essa qualificativa, os promotores mantêm as acusações de que Maduro participou de uma conspiração de narcoterrorismo, além de crimes como importação de cocaína, posse e conspiração para posse de metralhadoras e dispositivos destrutivos.

A acusação inicial sobre o “Cartel de los Soles” foi feita em 2020 e apresentava uma narrativa de conspiração de vários anos, afirmando que o grupo fornecia armas às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e tentava inundar os Estados Unidos com cocaína como arma.

Em julho de 2025, o Departamento do Tesouro dos EUA designou o suposto cartel como organização terrorista. Em novembro do mesmo ano, Marco Rubio, então secretário de Estado, orientou seu departamento a agir da mesma forma.

Relatórios da DEA (Agência de Combate às Drogas) e do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime nunca mencionaram o “Cartel de los Soles” em seus documentos oficiais que identificam as principais organizações de tráfico.

Autoridades norte-americanas apontam o Cartel de los Soles como uma rede de corrupção ligada ao narcotráfico dentro das Forças Armadas venezuelanas, onde membros de alto escalão facilitariam o transporte de cocaína em parceria com grupos armados como as Farc. Inicialmente, acreditava-se que o esquema funcionava como um cartel estruturado, liderado por Maduro.

Especialistas e críticos ressaltam que o termo pode não se referir a uma organização criminosa formal, mas sim a uma expressão usada desde a década de 1990 para designar militares corruptos, em referência aos sóis nas insígnias dos oficiais de alta patente. A nova acusação do Departamento de Justiça dos EUA segue esse entendimento, tratando o Cartel de los Soles como um sistema difuso de corrupção e clientelismo sem hierarquia clara.

Na América Latina, o caso é tratado com cautela. Relatórios de organismos internacionais e agências antidrogas da região não reconhecem o Cartel de los Soles como um cartel formal, considerando mais um problema estrutural de corrupção estatal do que uma organização criminosa transnacional comparável aos cartéis mexicanos ou colombianos.

O presidente colombiano Gustavo Petro (Colômbia Unida, esquerda) nega a existência do cartel, afirmando em sua conta na rede social X que “o Cartel de los Soles não existe; é uma desculpa fictícia usada pela extrema-direita para derrubar governos que não obedecem aos interesses norte-americanos”. Petro disse ainda que o narcotráfico na Venezuela possui uma estrutura diferente, denominada “Junta do Narcotráfico”, com líderes atuando na Europa e no Oriente Médio, e não identifica Maduro como líder de qualquer cartel formal.

Créditos: Poder360

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