Ex-delegado Ruy Ferraz Fontes foi alertado três vezes sobre ameaça do PCC
O promotor Lincoln Gakiya revelou ao jornal O Globo que Ruy Ferraz Fontes, ex-delegado geral da Polícia Civil de São Paulo, foi avisado pelo menos três vezes desde 2006 sobre estar na mira do Primeiro Comando da Capital (PCC). Apesar de as investigações ainda não terem confirmado oficialmente, há indícios fortes do envolvimento da facção criminosa no assassinato do ex-delegado.
Gakiya, especialista em combate ao PCC, afirmou em entrevista que o crime pode ter sido uma retaliação planejada pela facção, comparando o atentado a outros atos de natureza terrorista já atribuídos ao grupo. Ele ressaltou que o assassinato evidencia tanto o alcance da capacidade de retaliação do PCC quanto a vulnerabilidade dos agentes públicos aposentados, que ficam desprotegidos após deixarem a ativa.
Sobre as linhas de investigação, o promotor informou que o principal suspeito possui ligação com o PCC e é egresso do sistema prisional. Contudo, ele disse que, até o momento, não é possível confirmar se o crime foi mandado pelo PCC ou se envolveu outras organizações criminosas. A investigação ainda está em curso.
Gakiya não descarta participação de agentes públicos no caso, destacando que criminosos ligados ao chamado setor da sintonia restrita do PCC recebem treinamento paramilitar, muitas vezes com envolvimento de ex-militares e policiais corruptos. Ele explicou que esses grupos utilizam criminosos experientes em roubos a bancos para execuções, o que exige perícia com armamento pesado e técnicas de fuga. Assim, a possibilidade da participação de policiais ou ex-policiais deve ser apurada.
O promotor também comentou que o modus operandi do assassinato lembra o ocorrido com Gritzbach, com a escolha de local público movimentado para enviar uma mensagem do crime organizado, demonstrando sua capacidade de atos terroristas.
Além disso, Gakiya afirmou que Fontes já sabia do juramento de morte feito pelo PCC, tendo sido comunicado por ele pessoalmente em diversas ocasiões, inclusive em 2024, quando seu nome apareceu correlacionado a ordens de execução encontradas em escutas da Penitenciária Federal após a Operação Sequaz da Polícia Federal.
Sobre a proteção a autoridades aposentadas, o promotor explicou que Fontes se sentia abandonado, pois, segundo ele, a legislação não garante escolta após a aposentadoria. Apesar de ter solicitado cautela, o ex-delegado não tinha direito a escolta oficial nessa condição.
Gakiya relatou que recebeu ameaças semelhantes e que o PCC não perdoa autoridades que investigaram seu grupo, citando Fontes como um dos primeiros responsáveis pela prisão da liderança do PCC em 2006. Ele também revelou um plano frustrado de assassinato contra Fontes em 2010, quando policiais da Rota impediram a ação.
Quanto a rumores de envolvimento de Fontes em contratos na prefeitura que poderiam motivar o homicídio, o promotor disse que não há nada confirmado, e mesmo que essas suspeitas fossem verdadeiras, elas não excluiriam a presença de crime organizado no caso. Gakiya afirmou que as ordens para matar Fontes são antigas e têm origem na liderança do PCC.
Por fim, o promotor expressou preocupação com a segurança dos delegados mais jovens e seu futuro após a aposentadoria, destacando a vulnerabilidade enfrentada por aqueles que enfrentam o crime organizado, e o impacto moral que o assassinato de Fontes causou a ele pessoalmente.
Créditos: O Globo