Ex-embaixador diz que Trump precisa atacar alvos na Venezuela para não parecer fraco
O ex-embaixador americano John Feeley afirmou à BBC News Brasil que, após meses de demonstrações de força e ameaças contra a Venezuela, o presidente Donald Trump “precisa explodir alguns alvos” no país sul-americano para evitar parecer fraco.
Feeley ressalta que Trump está limitado pela política eleitoral dos EUA, que aconselha não iniciar novas guerras em ano eleitoral, mas que o presidente tem sido pressionado pelo secretário de Estado Marco Rubio a demonstrar força militar. “Sabemos que Trump detesta fraqueza”, afirmou o diplomata.
Considerado um dos maiores especialistas em América Latina do Departamento de Estado, Feeley foi embaixador no Panamá e deixou o governo em 2018 por discordar das decisões de Trump. Para ele, um possível ataque terrestre anunciado em 29 de dezembro representaria uma escalada significativa entre EUA e Venezuela.
No entanto, o ex-embaixador ressalta que a divulgação confusa do presidente sobre a suposta operação clandestina e a ausência de confirmação independente prejudicam sua eficácia. Trump declarou que os EUA destruíram instalações que armazenavam drogas na Venezuela, com uma grande explosão num cais, mas não detalhou a ação.
Fontes de veículos norte-americanos, como The New York Times e CNN, informaram que um ataque de drone da CIA teria provocado a explosão, mas nem as Forças Armadas dos EUA, nem a CIA, nem a Casa Branca confirmaram. O governo venezuelano também negou qualquer ataque em seu território.
Feeley disse que revelar informações sobre a operação pode colocar em risco agentes americanos no país, além de alertar que, se a operação não ocorreu, Trump parecerá confuso. Nos últimos meses, os EUA atacaram dezenas de embarcações no Caribe e no Pacífico, alegando tráfico de drogas, mortes e custos elevados, mas sem apresentar provas.
Os Estados Unidos também destacaram seus maiores navios de guerra na região num esforço militar chamado Operação Lança do Sul. Em outubro, Trump confirmou ter autorizado operações secretas da CIA na Venezuela e, em dezembro, decretou bloqueio completo de petroleiros sancionados no país.
Em entrevista recente, Feeley criticou a falta de clareza da estratégia americana na Venezuela, questionando os objetivos se não declarados abertamente. Ele afirma que a demonstração de força dos EUA não tem sido suficiente para derrubar Nicolás Maduro.
Questionado sobre possível escalada para conflito direto, o diplomata disse que o governo venezuelano não tem capacidade para isso, enquanto Trump tem as opções de ataque terrestre, aéreo ou recuar.
Feeley também comentou sobre a líder da oposição venezuelana María Corina Machado, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, e a comparou ao político iraquiano Ahmed Chalabi, que incentivou a invasão do Iraque baseada em informações falsas. Ele avalia que Machado está usando o pretexto do fentanil para tentar estimular uma intervenção dos EUA na Venezuela.
Créditos: BBC