Economia
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Francesa que mantém fazenda sozinho ilustra oposição francesa ao Mercosul

Anaïs Boudal, de 37 anos, cria gado em Courpière, interior da França, e representa a pressão que pequenos agricultores franceses enfrentam com o acordo comercial entre União Europeia e Mercosul. O tratado expõe a desigualdade de escala com países como o Brasil e reacende protestos no setor, marcado por baixa renda, dependência de subsídios e jornadas intensas.

Em Paris, agricultores protestam contra o acordo, enquanto o presidente Emmanuel Macron afirma que não o ratificará. Produtores veem o tratado como uma ameaça, pois abre o mercado europeu para importações mais baratas vindas do Brasil, Argentina, Bolívia, Paraguai e Uruguai. A posição francesa foi derrotada. A Interbev, associação que reúne profissionais da cadeia agropecuária, qualificou o acordo como “inaceitável”, pois a UE abre mão de uma política comercial coerente com as exigências feitas a seus produtores.

Anaïs conta com seu único funcionário, o border collie Puma, adotado no fim de 2025 para ajudar no manejo do rebanho de 128 animais das raças ferrandaise e cruzada com limousin, em 80 hectares alugados.

Sua fazenda está na média francesa, onde a propriedade média tem 69 hectares. O rebanho francês soma cerca de 17 milhões de cabeças, frente a quase 238 milhões no Brasil, mostrando a discrepância de escala que motiva a insatisfação.

Formada em agropecuária com mestrado em gestão, Anaïs iniciou o negócio em 2018 com um empréstimo de 200 mil euros, que quitará em 2029. Seu objetivo sempre foi a independência. Seu pai, açougueiro e produtor rural, era seu primeiro cliente, comprando carne de vitela.

Dificuldades com a raça ferrandaise, que vale menos comercialmente, levaram-na a um reposicionamento em 2023. Passou a cruzar ferrandaise com limousin e a fornecer carne de vitela apenas no verão, vendendo bezerros desmamados para Espanha e Itália durante o resto do ano.

Sua rotina é exaustiva, das 9h da manhã até a noite, sete dias por semana, 365 dias por ano. Em quase cinco anos, Anaïs tirou apenas uma semana de férias em 2023. Durante a temporada de parição, volta à fazenda à noite para acompanhar os nascimentos — que podem ocorrer entre a madrugada e amanhecer — e levanta cedo no dia seguinte.

Apesar do negócio estar saudável financeiramente, a remuneração ainda é menor que o salário mínimo francês, e Anaïs recebe subsídios regionais, nacionais e da União Europeia, principalmente via Política Agrícola Comum (PAC). Ela acredita que essas ajudas aumentam os custos dos insumos sem beneficiar diretamente o agricultor.

Em 2025, os produtores viram preços da carne subirem cerca de 50% em relação a 2022. Anaïs recebeu em sua última venda de carcaça 4,70 euros por quilo da ferrandaise e 5,80 na cruzada com limousin. Na França, só o peso da carcaça é remunerado, miúdos e couro ficam com o abatedouro, diferentemente do Brasil, onde podem ser pagos.

Além do manejo, Anaïs enfrenta burocracia constante com pedidos de subsídios, obrigações sanitárias, rastreabilidade e controle de animais mortos, dedicando uma semana do ano quase integralmente a essas tarefas.

Questionada por que continua, ela explica que o retorno do investimento na agricultura demora muito mais do que em outros negócios. Para ela, o prazo de pagar o investimento será ainda maior devido à reestruturação recente.

Enquanto caminha pelo pasto, Anaïs demonstra conhecimento profundo dos animais, apreciando os diferentes padrões de pelagem da raça ferrandaise. Ela confessa sentir responsabilidade e respeito pelos animais, reconhecendo que sua criação tem um papel na alimentação da população.

Créditos: UOL Economia

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