Fuvest 2026 apresenta interdisciplinaridade e aborda Caetano Veloso e uberização
A primeira fase da Fuvest, realizada no domingo (23), foi marcada pelas alterações anunciadas neste ano, com maior enfoque na interdisciplinaridade. A prova integrou, de forma mais direta, conteúdos de filosofia, sociologia, artes e educação física, conforme as diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC).
Professores consultados pela Folha destacaram que as mudanças foram percebidas tanto na estrutura da prova quanto nos temas, que dialogaram com debates contemporâneos e cruzaram diversas áreas do conhecimento.
Entre as questões que geraram maior repercussão entre os candidatos estão perguntas sobre Caetano Veloso, a chamada uberização do trabalho e a recente demonização da CLT entre os jovens.
A abstenção na primeira fase da Fuvest 2026 foi de 9,17% dos inscritos, índice acima dos anos anteriores. A fundação que organiza o vestibular informou que o aumento pode estar relacionado à coincidência com um feriado prolongado.
Em coletiva, o diretor-executivo da Fuvest, Gustavo Mônaco, afirmou que, apesar do exame manter o nível habitual de exigência, a prova privilegiou a integração dos saberes e a aplicação prática dos conteúdos.
Segundo Luiz Otávio Ciurcio Neto, diretor do Poliedro Curso, a prova reforçou a contextualização, exigindo que mesmo as questões técnicas fossem relacionadas a situações reais. Ele explicou que raramente uma questão podia ser resolvida com base em um único conteúdo, sendo necessária a articulação entre temas para alcançar a resposta.
Vera Lúcia da Costa Antunes, coordenadora do Curso e Colégio Objetivo, ressaltou que a prova demandou repertório cultural e conhecimento aprofundado, indo além do estudo superficial. A interpretação, compreensão da linguagem e aplicação de conceitos foram essenciais, especialmente em questões linguísticas que cobraram domínio da norma e das variedades linguísticas, alinhadas à BNCC.
Na área de química, houve maior evidência das alterações. Eduardo da Silva Machado, professor do Colégio Oficina do Estudante, observou aumento de questões de cálculo que exigiam múltiplas etapas de resolução, tornando a prova mais trabalhosa.
Henrique Romero, professor da Escola SEB AZ Lafaiete, avaliou que o nível da prova de química esteve dentro do esperado, destacando a ausência de química orgânica, que era recorrente em anos anteriores. Ele destacou ainda uma questão sobre o gasto energético da geração de imagens por Inteligência Artificial e suas emissões de CO₂, considerada atual.
Em física, o número de questões foi reduzido. Emerson Conceição Júnior, professor do Cursinho da Poli, classificou a prova como de nível médio, e apontou que parte do conteúdo apareceu de forma interdisciplinar em textos da prova de inglês.
Na matemática, professores relataram que a questão 3 da prova V1 apresenta um erro conceitual, não tendo alternativa correta. O gabarito oficial indica a letra C, mas docentes afirmam que nenhuma opção é plenamente válida. Giuseppe Nobolioni, coordenador de Matemática do Objetivo, comentou que as alternativas podem ser interpretadas de forma contraditória.
Em biologia, João Karllos, professor do Colégio Farias Brito, destacou o aumento da integração entre saberes, com dez questões exclusivas da disciplina e cinco formuladas de forma interdisciplinar com inglês. Segundo ele, o novo formato exigiu dos candidatos uma capacidade cognitiva mais sofisticada.
Na área de humanas, mudanças estruturais também foram notadas. Felipe Mello, professor de história do Colégio Oficina do Estudante, classificou o nível como mediano, com enunciados mais longos que exigiam maior atenção. Os temas contemplaram povos indígenas, escravidão, islamismo e democracia ateniense, abordados com nível exigente.
Sílvio Sawaya, professor de humanidades do mesmo colégio, explicou que a questão sobre uberização discutia a eliminação de direitos e a transferência de riscos para os trabalhadores. O texto descreve o trabalhador “just in time” sob demanda e traz uma visão crítica sobre o aumento da informalidade.
Muitos estudantes relataram dificuldade com as questões de inglês, comparando-as a exames de proficiência. Ademar Garcia, professor do Colégio Farias Brito, explicou que a interdisciplinaridade pode ter criado a impressão de maior complexidade, porém, os temas atuais e a leitura atenta dos textos ajudavam na resolução.
Em língua portuguesa, a interdisciplinaridade também se destacou. Willy Rocha, professor da Escola SEB AZ Lafaiete, comentou que as 24 questões dialogaram intensamente com outras disciplinas. Ele citou uma questão sobre Caetano Veloso que explicava o nome da irmã Maria Bethânia e outra que relacionava obras literárias ao histórico de leis e políticas para mulheres no Brasil.
Apesar das mudanças, a estrutura da prova permanece igual: a primeira fase tem 90 questões de múltipla escolha; a segunda fase aplicará redação e dez questões dissertativas de português no primeiro dia, além de 12 questões específicas no segundo dia.
Outra alteração significativa está na lista de leituras obrigatórias. Pela primeira vez, todas as obras exigidas são de autoras mulheres, decisão válida até 2028, segundo a USP. Entre os títulos estão “Opúsculo Humanitário”, de Nísia Floresta; “As Meninas”, de Lygia Fagundes Telles; e “Canção para Ninar Menino Grande”, de Conceição Evaristo. A partir de 2029, a lista incluirá novamente autores homens.
Doze questões trataram das leituras obrigatórias de forma comparativa. A autora mais citada foi Rachel de Queiroz, com perguntas relacionando literatura a temas de matemática e sociologia.
A USP manteve o total de 11,1 mil vagas para seus cursos de graduação no vestibular 2026. As oportunidades são distribuídas entre Fuvest, Enem USP e Provão Paulista. A Fuvest permanece como principal via de ingresso, com 8.147 vagas, das quais 4.888 são de ampla concorrência, 2.053 para alunos de escola pública, e 1.206 para candidatos de escolas públicas pretos, pardos e indígenas.
Medicina continua sendo o curso mais disputado, com 90,7 candidatos por vaga e 244 vagas oferecidas pelo vestibular.
A segunda fase do vestibular está marcada para os dias 14 e 15 de dezembro. A primeira chamada está prevista para 23 de janeiro de 2026.
Créditos: Folha de S.Paulo