Hamas retoma execuções públicas em Gaza, ecoando prática do Talibã
Após o recuo do Exército de Israel, o Hamas retomou execuções públicas na Faixa de Gaza para reafirmar seu controle, em meio a confrontos com facções rivais e tentativas de restauração da ordem. Vídeos dessas ações circulam nas redes sociais e são divulgados por canais oficiais do Hamas, lembrando as punições públicas adotadas pelo Talibã no Afeganistão.
Em setembro de 2021, o então ministro das Prisões do governo talibã, mulá Nooruddin Turabi, informou à Associated Press que amputações e execuções voltariam a ser aplicadas como punição, conforme a lei islâmica. Ele defendeu que “cortar as mãos é muito necessário para a segurança” e ressaltou que o Talibã seguiria as normas do Alcorão sem aceitar interferência externa.
Na época, os Estados Unidos criticaram duramente essas práticas, classificando-as como “abusos flagrantes dos direitos humanos” e alertando que elas dificultariam o reconhecimento internacional do regime talibã.
Dentro do Afeganistão, membros do governo talibã defenderam a exposição pública das punições. Noor Ahmed Sayed, delegado de Informação e Cultura de Kandahar, afirmou que as execuções servem como “terapia social” para prevenir crimes, explicando que casos raros de pessoas condenadas por múltiplos assassinatos eram punidos segundo a sharia, podendo a família da vítima poupar a vida do condenado.
Execuções públicas em locais como praças e estádios foram marcas sombrias do primeiro governo talibã (1996–2001).
Hoje, esse padrão se reproduz em Gaza, onde homens mascarados executam supostos criminosos em público. O Hamas declara que essas medidas visam “garantir a ordem e restaurar a lei” após dois anos de conflito e colapso institucional.
A população local, porém, está dividida. O advogado Mumen al-Natoor criticou as execuções, afirmando que tais atos sem provas, julgamento ou possibilidade de recurso são ilegais e classificou os responsáveis como criminosos, destacando os episódios como capítulos sombrios da história local.
Por outro lado, moradores como Abu Fadi al Banna, de 34 anos, afirmam ter sentido melhora na segurança, mencionando ações como organização do trânsito e desobstrução dos mercados, que proporcionaram proteção contra criminosos.
A adoção do terror e do espetáculo das punições públicas como ferramenta política é comum tanto em Cabul quanto em Gaza. No Afeganistão, o Talibã justificou amputações pela sharia; em Gaza, o Hamas enquadra execuções como medidas de segurança.
Essa semelhança revela um padrão de grupos fundamentalistas islamistas que, diante do colapso estatal, recorrem à violência ritualizada para legitimar seu poder. Assim como o Talibã buscava reconhecimento após a retirada dos EUA, o Hamas tenta consolidar seu controle territorial em meio à ausência de poder e pressões internacionais por desarmamento e formação de novo governo palestino.
Créditos: O Globo