Economia
15:10

Impactos econômicos no Brasil com colapso do regime Maduro na Venezuela

A invasão da Venezuela pelos Estados Unidos e a provável queda do regime do presidente Nicolás Maduro devem causar efeitos imediatos na economia brasileira, principalmente por meio da maior volatilidade nos mercados financeiros e nos preços do petróleo. No entanto, especialistas apontam que o impacto no PIB brasileiro será limitado no médio e longo prazos, devido à pequena participação da Venezuela nas relações econômicas do Brasil.

A mudança de regime provocará volatilidade nos mercados de câmbio, juros, ações e commodities. A incerteza sobre a continuidade das operações econômicas venezuelanas, incluindo a produção e comércio de petróleo, deve levar à cautela dos investidores. Assim, espera-se queda nas ações de empresas brasileiras na Bolsa, desvalorização do real frente ao dólar e aumento dos juros a partir do dia seguinte ao evento.

Comércio bilateral reduzido. Apesar da pouca expressão comercial entre Brasil e Venezuela, a intervenção direta americana em um país da América do Sul rompe com a soberania nacional e preceitos multilaterais, o que agrega outras repercussões. A duração e intensidade da intervenção definirão os impactos econômicos. No mercado brasileiro, a expectativa é de volatilidade cambial e incertezas nos ativos financeiros, no mercado acionário e nas taxas de juros, segundo o economista Antonio Corrêa de Lacerda, da PUC-SP.

Em relação à inflação, se persistirem altas nos preços do petróleo e outros ativos financeiros como o dólar, isso pode influenciar índices de preços, levando o Banco Central a postergar eventuais cortes na taxa Selic, hoje em 15% ao ano, contrariando expectativas do mercado para afrouxamento monetário entre março e julho de 2026.

Conflitos militares tendem a aumentar a incerteza global. A princípio, espera-se saída de capital dos ativos de risco, principalmente de bolsas fora do eixo Nova York-Londres. Ao mesmo tempo, ativos considerados de proteção, como ouro e dólar, devem se valorizar, enquanto bolsas emergentes enfrentarão maior volatilidade, explica o economista Francislei Neves Souza, da Eurotrader.

O fluxo comercial entre os países é pequeno. Entre janeiro e novembro de 2025, o Brasil exportou US$ 751 milhões para a Venezuela, queda de 32% em relação a 2024, representando apenas 0,24% das vendas brasileiras externas. As importações caíram 23%, totalizando US$ 314 milhões, ou 0,12% das compras do Brasil do país vizinho. A corrente total de comércio reduziu 30% em 2025 para US$ 1,1 bilhão, frente aos US$ 3,7 bilhões registrados em 2016. Por isso, o impacto imediato na economia brasileira tende a ser mínimo, tendo a balança comercial peso inferior a 0,03% do PIB, segundo projeções do Bradesco BBI.

A economia venezuelana encolheu nos últimos anos, limitando seu mercado interno. O PIB per capita recuou de US$ 13,6 mil para US$ 4,2 mil desde 2010, reduzindo sua inserção no comércio global. Paulo Feldmann, professor de geopolítica da FEA-USP, considera que o mercado venezuelano não é relevante para o Brasil, pois as trocas comerciais são pequenas e o Brasil possui outras opções no mercado mundial.

Donald Trump anunciou que permitirá que petroleiras americanas atuem na Venezuela, que possui as maiores reservas petrolíferas globais. Isso provoca impacto imediato na exploração do petróleo, setor que reflete diretamente na Petrobras, protagonista brasileira no mercado.

A cotação internacional do barril de petróleo deve subir no curto prazo devido à expectativa de redução na oferta venezuelana, conforme aponta Roberto Ardenghy, presidente do IBP (Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis). Para a Petrobras, a valorização do petróleo pode ser favorável inicialmente, conforme o presidente da ANP, Artur Watt Net.

No comércio, os principais produtos que o Brasil vende à Venezuela são básicos: açúcar e derivados (US$ 114 milhões), alimentos (US$ 97 milhões) e veículos (US$ 40 milhões). A Venezuela caiu da quarta para a 29ª posição entre os importadores do agronegócio brasileiro, com exportações anuais reduzidas de US$ 3 bilhões em 2014 para US$ 919 milhões em 2024.

Já as importações brasileiras da Venezuela são compostas por adubos e fertilizantes (40,4%), alumínio (30,7%), álcoois (15,5%), produtos residuais de petróleo (7,8%) e elementos químicos inorgânicos (3,9%).

Estados brasileiros fronteiriços, como Roraima, podem sofrer mais com a situação. Em 2024, 46% das exportações de Roraima foram destinadas à Venezuela, principalmente alimentos como óleo de soja, farinha de trigo e produtos lácteos.

Para o presidente da AEB, José Augusto de Castro, a participação da Venezuela no comércio brasileiro permanecerá limitada. O setor de petróleo é o mais suscetível a impactos da crise venezuelana. Caso os planos americanos de investimento na indústria petrolífera venezuelana se confirmem, poderá haver efeito positivo no médio e longo prazo.

Porém, se as petroleiras americanas realmente controlarem e ampliem a produção na Venezuela, como prometido por Trump, a oferta global de petróleo aumentará, pressionando para baixo os preços, o que pode prejudicar o Brasil, alerta Adriano Pires, diretor do CBIE.

A dívida venezuelana com o Brasil é cerca de US$ 2,5 bilhões, equivalente a 0,7% das reservas brasileiras. Parte dessas dívidas já foi reconhecida como prejuízo após inadimplência desde 2018. O BNDES financiou projetos de infraestrutura na Venezuela, como expansão do metrô de Caracas e siderúrgica. Os pagamentos estão suspensos há sete anos, com cobertura pelo Seguro de Crédito à Exportação, gerenciado pela União.

Assim, embora o cenário geopolítico cause instabilidades de curto prazo, a economia brasileira deve sofrer impactos comerciais limitados, com atenção especial ao setor de petróleo diante dos desdobramentos da intervenção americana na Venezuela.

Créditos: UOL Economia

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