Invasão americana na Venezuela reforça papel da América do Sul em disputas globais
Com a invasão da Venezuela pelos Estados Unidos, a América do Sul passou a integrar as regiões onde as superpotências se sentem confortáveis para derrubar governos e controlar o petróleo. Caso haja expectativa otimista, vale lembrar que o Oriente Médio não é conhecido por democracias estáveis e prósperas.
O ataque americano teve um tom típico de imperialismo. Enquanto Javier Milei comemorava com o grito “Libertad, carajo!”, Donald Trump admitia abertamente que estava na Venezuela para entregar mais “carajo” do que “libertad”.
Trump anunciou claramente que o governo dos EUA, e não o povo venezuelano, vai controlar a Venezuela por tempo indefinido. Ele avisou que o petróleo venezuelano será entregue para as empresas petrolíferas americanas. Em seguida, publicou em suas redes sociais que a Venezuela usaria os recursos obtidos com o petróleo para comprar produtos americanos.
Talvez seguindo a ideia de um “bolsonarismo moderado”, Trump indicou uma “madurista moderada” para governar a Venezuela. Assim como no Brasil, o termo “moderado” não se refere a respeito à democracia, mas indica a aplicação das políticas econômicas preferidas pelos que detêm poder para decidir quem recebe esse rótulo.
Na prática, Trump não tinha alternativa a não ser fechar acordo com chavistas, pois tentar instalar um opositor exigiria ocupação militar, que seria cara. Um governo democraticamente eleito também dificilmente aceitaria entregar o petróleo venezuelano a uma potência estrangeira.
Não está claro quais as chances de transição para democracia e autonomia venezuelana. Tudo parece complicado, mas é possível esperar que o povo venezuelano consiga conquistar democracia em meio ao conflito entre Trump e Maduro. A escritora venezuelana María Elena Morán expressou esperança ao comemorar a queda de Maduro.
Por outro lado, há um aumento difícil de medir do risco autoritário nos EUA. Trump vê a invasão venezuelana como parte de uma guerra contra imigrantes e criminosos, que em sua visão seriam a mesma coisa. Seus apoiadores radicais podem usar o sequestro de Maduro como justificativa para ampliação dos poderes presidenciais.
O principal impacto da ação de Trump na Venezuela é o enfraquecimento da ordem internacional multilateral, já fragilizada após a invasão da Ucrânia e a tentativa de anexar Gaza.
Embora haja falhas na governança global, abandoná-la sem um substituto adequado é um erro grave. Sem multilateralismo, haverá mais dificuldades para enfrentar problemas globais como pandemias e mudanças climáticas, já que não existirão esforços coordenados.
Para reforçar, se o mundo passar a ser governado apenas pela lei do mais forte, os gastos militares aumentarão, e a população pagará mais impostos para financiar isso.
Créditos: Folha de S.Paulo