Internacional
18:08

Irã enfrenta forte repressão em protestos intensos e bloqueio da internet

Os líderes do Irã encaram o maior desafio desde a revolução de 1979 e respondem com uma repressão inédita. O governo lançou uma forte ofensiva de segurança e aplicou um bloqueio quase total da internet, numa escala jamais vista em crises anteriores.

Muitas ruas, antes tomadas por protestos, agora começam a silenciar. Um morador de Teerã relatou que na sexta-feira (9/1) a multidão era grande e cercada por disparos, mas no sábado à noite tudo ficou quieto. Um jornalista local afirmou que sair de casa tornou-se perigoso.

A atual agitação é agravada por ameaças externas, com o presidente americano Donald Trump alertando sobre possível ação militar, sete meses após um conflito de 12 dias entre Irã e Israel, que afetou o regime iraniano. Trump afirmou que Teerã solicitou voltar às negociações, mas ressaltou que talvez precise agir antes delas; contudo, as tensões não serão totalmente dissipadas por conversas.

O Irã não deve ceder às exigências americanas, como o fim do enriquecimento de urânio, que está no centro da doutrina teocrática do país. Apesar da pressão, não há indicações de mudança de rumo pelos líderes iranianos, que pretendem reprimir os protestos para sobrevivência, segundo o especialista Vali Nasr.

Esta semana pode ser decisiva para o futuro dos protestos e da região, podendo resultar em mais ataques militares ou na sufocação da insatisfação pela força. O ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, afirmou que a situação está sob controle. Conforme relatos, pessoas pró-governo têm ocupado as ruas para retomar espaços dos manifestantes.

Após cinco dias de comunicação bloqueada, chegam imagens e relatos assustadores, incluindo hospitais lotados, necrotérios improvisados e áudios expressando medo enviados a jornalistas. Grupos de direitos humanos indicam mais de 20 mil detidos e um número crescente de mortos, maior que nas ondas anteriores de protestos entre 2022 e 2023.

O governo admite mortes e exibe imagens de necrotérios; manifestações violentas têm resultado em ataques a prédios públicos, mas o regime classifica esses atos como terrorismo e ameaça com pena de morte. Relatos apontam que pelo menos um manifestante de 26 anos será executado.

As autoridades responsabilizam principalmente inimigos externos, como Israel e os Estados Unidos, citando infiltração da segurança israelense durante o conflito do ano anterior.

Os protestos começaram com greves de comerciantes após a desvalorização da moeda e alta inflação, que chegou a quase 50% ao ano. O governo tentou responder com diálogo e auxílio financeiro, mas a insatisfação cresceu, levando a multidões exigindo mudanças políticas e econômicas pelo país.

O Irã enfrenta devastação por sanções, má gestão, corrupção e restrições sociais, mas seu sistema continua firme. Analistas indicam que o regime só pode cair caso as forças repressoras desistam de defendê-lo. Divisões internas e decisões sobre negociações com os EUA e retomada estratégica complicam o quadro.

O líder supremo Ali Khamenei, com 86 anos, mantém controle, apoiado pelo Corpo da Guarda Revolucionária, que influencia política, segurança e economia. As ameaças diárias de Trump aumentam a atenção dos governantes e levantam dúvidas sobre o impacto de eventuais intervenções militares.

Especialistas afirmam que uma ação externa poderia fortalecer a coesão interna do regime e sufocar divisões em momento vulnerável. Reza Pahlavi, ex-príncipe herdeiro exilado, tem chamado Trump para intervir, mas sua posição é controversa. Outros ativistas, como vencedora do Nobel Narges Mohammadi e cineasta Jafar Panahi, defendem mudança pacífica vinda de dentro.

Pahlavi tem influenciado a mobilização popular, embora a extensão de seu apoio seja incerta. Símbolos do Irã pré-revolucionário retornaram às ruas, enquanto alguns iranianos preferem reformas ao colapso, mesmo entre apoiadores do regime.

A história mostra que, quando há grande mobilização social, a mudança pode ser imprevisível e perigosa, vindo tanto de cima quanto de baixo.

Créditos: BBC

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