Lavrov na ONU: Rússia responderá decisivamente a qualquer agressão
27/09/2025 13h40 Atualizado agora
GERADO EM: 27/09/2025 – 14:36
Durante discurso na Assembleia Geral da ONU, Sergei Lavrov, ministro das Relações Exteriores da Rússia, afirmou que qualquer agressão contra o país será “respondida de forma decisiva”. Apesar do tom de ameaça, disse que Moscou permanece aberto a negociações sobre a guerra na Ucrânia. Em relação ao Irã, que volta a sofrer sanções econômicas e militares por conta de seu programa nuclear após um hiato de 10 anos, Lavrov acusou o Ocidente de “boicotar a diplomacia”.
— Como o presidente Vladimir Putin enfatizou repetidamente, a Rússia foi e permanece aberta a negociações sobre a eliminação das causas principais do conflito com a Ucrânia. A segurança da Rússia e seus interesses vitais devem ser garantidos de maneira confiável. Até agora, nem Kiev nem seus patrocinadores europeus parecem perceber a gravidade da situação, ou estão dispostos a negociar honestamente — afirmou Lavrov, que substituiu o presidente russo,Vladimir Putin, que não foi à Assembleia Geral da ONU.
O chanceler também condenou a guerra em Gaza, afirmando que “não há justificativa para os assassinatos brutais da população civil da Palestina”.
— A Rússia condenou firmemente o ataque dos militantes do Hamas a civis israelenses em 7 de outubro de 2023. No entanto, não há justificativa para os assassinatos brutais da população civil da Palestina. Também não há justificativa para a punição coletiva de palestinos na Faixa de Gaza, onde crianças estão morrendo pelos bombardeios e pela fome — declarou.
A Otan está sob alerta permanente em relação à Rússia após incursões aéreas do país nos céus da Polônia e da Estônia. Moscou, porém, nega que seus aviões tenham entrado no espaço aéreo estoniano e afirma que os drones não tinham como alvo a Polônia. Líderes europeus, contudo, veem os incidentes como movimentos intencionais e provocativos, com o objetivo de abalar a Otan e avaliar como a aliança responderá.
Na noite da última quinta-feira, após uma reunião entre ministros das Relações Exteriores do G20, Lavrov acusou a Otan e a União Europeia de usarem a Ucrânia para deslanchar uma “guerra real” contra a Rússia. No discurso deste sábado, afirmou que a “Rússia não tem, nem nunca teve, intenção de atacar a Otan”.
— A Otan continua a se expandir para nossas fronteiras. Propomos repetidamente que respeitem seus compromissos e concordem em garantias de segurança legalmente vinculativas. Qualquer agressão contra meu país será recebida com uma resposta decisiva — disse o chanceler.
O discurso de Lavrov na Assembleia Geral no ano passado foi um duro golpe contra o Ocidente, incluindo referência à “falta de sentido e perigo da própria ideia de se tentar lutar pela vitória enfrentando uma potência nuclear, caso da Rússia”.
Este ano, a fala ocorreu quatro dias após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmar acreditar que a Ucrânia pode reconquistar todo o território perdido para a Rússia na guerra. Foi uma mudança notável de tom para Trump, que anteriormente havia sugerido que Kiev precisaria fazer concessões em relação às áreas ocupadas por Moscou desde a tomada da Península da Crimeia, em 2014.
— A Rússia e os EUA assumem uma responsabilidade especial pelo estado das coisas no mundo e por evitar riscos que poderiam mergulhar a humanidade em uma nova guerra — ponderou Lavrov.
O Brasil também foi mencionado: Lavrov afirmou que “apoia Brasil e a Índia para assentos permanentes no Conselho de Segurança da ONU”. Na última terça-feira, em seu discurso na ONU, Lula defendeu “uma reforma mais abrangente” da ONU que contemple “um Conselho de Segurança ampliado nas duas categorias de seus membros (temporária e permanente)”. A reforma do Conselho de Segurança é historicamente defendida pelo Brasil, que busca há décadas um assento permanente no órgão.
Após o discurso, Lavrov concedeu uma entrevista coletiva. A primeira pergunta foi sobre as supostas violações russas no espaço aéreo de países da União Europeia (UE) e da Otan.
— Não temos nada a esconder. Nunca atacamos civis nem infraestrutura. Incidentes acontecem, mas nunca realizamos disparos direcionados contra eles. Nós nunca miramos países da Europa, sejam eles membros da UE ou da Otan — respondeu o chanceler.
Quando questionado sobre negociações de paz entre a Rússia e a Ucrânia, Lavrov afirmou que Kiev não quer que as negociações diretas continuem. Revelou que Volodymyr Zelensky e seus ministros dizem que “negociar com Putin é impossível”.
As tensões no flanco leste da Europa aumentaram depois da Estônia acusar Moscou de enviar três caças para seu espaço aéreo, uma semana após jatos da Otan derrubarem drones russos no espaço aéreo polonês.
Em declarações no Salão Oval, Trump expressou decepção com as ações de Putin e disse que Moscou estava se saindo mal na guerra na Ucrânia. Três semanas antes, o presidente russo dissera que seu país e os EUA tinham um “entendimento mútuo” e que Washington “está nos ouvindo”. Trump chegou a se gabar de laços estreitos com Putin e, no mês passado, o convidou para conversas no Alasca, pondo fim ao ostracismo imposto pelo Ocidente ao líder russo desde que ele ordenou a invasão da Ucrânia, em 2022. Agora, porém, Trump expressa sua frustração.
A reviravolta de Trump ocorreu após seu encontro com Volodymyr Zelensky, à margem da Assembleia Geral, na última terça-feira. No dia seguinte, durante seu discurso, o presidente ucraniano afirmou ter tido “uma boa reunião” com Trump.
As sanções da ONU contra o Irã foram restabelecidas neste sábado após o fracasso das negociações entre vários países europeus, que exigiam garantias sobre o programa nuclear do país, e Teerã, que considera a decisão ilegal. Reino Unido, França e Alemanha, o grupo E3, ativaram o mecanismo de “snapback” no final de agosto, que permite o restabelecimento, em até 30 dias, das sanções suspensas em 2015 após um acordo sobre o programa nuclear iraniano.
A Rússia, ao lado da China, tentou ao menos adiar o retorno das sanções com uma medida no Conselho de Segurança, mas sem sucesso. As penalidades vão desde um embargo total de armas a medidas econômicas severas e atingem um aliado central de Moscou. Lavrov criticou o que classificou de “boicote diplomático do Ocidente” a Teerã.
Créditos: O Globo